![]() Foto cedida Nuclear Weapon Archive |
Com relação a qualquer precipitação radioativa em potencial, o comunicado de imprensa oficial da Coréia do Norte declara que "foi confirmado que não há perigo de emissão radioativa durante a realização do teste nuclear". Deve-se ponderar, contudo, se é ao menos possível testar uma arma nuclear até o fim (acioná-la até seu último estágio nuclear em vez de simplesmente simular esse estágio usando armamento convencional) sem liberar alguma quantidade de radiação na atmosfera. Se casos antigos de testes nucleares são algum indicativo, um teste seguro é possível, mas mesmo sob condições ideais não há garantias.
Vamos começar dando uma olhada rápida no que acontece para que uma explosão nuclear seja produzida. Ela ocorre quando um átomo radioativo - geralmente urânio-235 ou plutônio-239 - entra em contato com nêutrons que estão se movimentando livremente. O que torna esses átomos diferentes da maioria dos outros é que eles são físseis e capazes de manter uma reação em cadeia. Essas duas características dependem da absorção de um desses nêutrons livres pelo átomo. Com a adição desse nêutron, o átomo se divide em várias partes, inclusive em diversos nêutrons. Com a quantidade de nêutrons livres aumentando, cada vez mais átomos começam a se fissionar. Sob circunstâncias ideais, ou "massa crítica," a divisão de átomos pode dobrar o número de nêutrons em um ambiente contido mais de 80 vezes em um microssegundo, fazendo que o aparelho aumente com uma força tremenda. O resultado é não só uma grande explosão como também a liberação de quantidades enormes de partículas radioativas que podem se espalhar por centenas de quilômetros, dependendo do tamanho do aparelho.
Então voltamos à questão: sob que circunstâncias é possível detonar esse tipo de aparelho sem causar danos à área ao redor? Para encontrar a resposta, vamos observar os métodos usados no passado e descobrir que tipo de dano, caso tenha ocorrido algum, esses testes de armas nucleares produziram.
Existem quatro métodos principais para testar armas nucleares: alta altitude, subterrâneo, subaquático e atmosférico.
Os testes atmosféricos liberam toda a precipitação radioativa de uma bomba nuclear explodindo em pleno ar ou na superfície do solo. Nesses testes, o aparelho nuclear pode estar fixado em cima de uma torre, ser jogado de um avião ou levado até a atmosfera por um balão.
![]() Foto cedida Administração Nacional de Segurança Teste atmosférico XX-12 GRABLE na |
![]() Foto cedida Administração Nacional de Segurança Destruição da casa de teste localizada a mil metros de distância da área de detonação de um teste atmosférico no Campo de Provas de Nevada, em 1953. A primeira foto e a última foram tiradas com um intervalo de 2,3 segundos. |
Grandes quantidades de precipitações radioativas resultaram desses testes e as medidas de segurança adequadas para evitar danos ao humanos, animais, plantações, prédios, ecossistemas e todas as coisas em um raio de centenas de quilômetros envolvem pura e simplesmente a evacuação da área. Esses testes geralmente são realizados em áreas abandonadas, como no do deserto de Nevada, onde os danos da precipitação radioativa podem ser reduzidos, porque existe uma quantidade muito pequena de seres vivos na área. Ainda assim, o teste nuclear mais desastroso da história dos EUA foi um atmosférico em que os engenheiros haviam tomado todas as precauções necessárias. Infelizmente, o que aconteceu é que eles tomaram todas as precauções necessárias para uma bomba com uma potência muito menor. O teste Castle Bravo, em 1954, realizado em uma ilha feita pelo homem no Pacífico, excedeu muito as expectativas. A explosão teve duas vezes o tamanho esperado e a precipitação radioativa foi muito maior do que se previra. Quando os padrões climáticos mudaram, o vento levou essa quantidade de partículas radioativas para áreas que não haviam sido evacuadas antes do teste. Os moradores da ilha, que não deveriam estar sujeitos a qualquer dano, acabaram com queimaduras radioativas, altos índices de câncer e defeitos congênitos na geração futura que muitos especialistas atribuíram ao teste Castle Bravo. Em termos gerais, o alto número de testes atmosféricos realizados pela França nas décadas de 60 e 70 parece ter resultado em um índice três vezes maior de câncer de tireóide e quatro vezes maior de leucemia mielóide aguda na Polinésia Francesa do que em outras populações parecidas que não estavam nas proximidaddes de testes nucleares extensivos.
Os testes debaixo da água apresentam muitos dos riscos dos testes atmosféricos, já que a explosão ultrapassa bastante o nível da água. A quantidade de precipitação radioativa na atmosfera, porém, é menor porque uma boa parte dela fica contida na água. E isso causa seus próprios problemas, é claro.
![]() Foto cedida Laboratório Nacional Los Alamos, Atomic Archive Um teste a 30 metros abaixo da água no |
Embora os efeitos na vida marinha causados pelos testes debaixo da água não tenham, por incrível que pareça, sido registrados na maioria dos livros, grupos ambientalistas documentam a destruição completa de recifes de corais, além da morte e da contaminação de outras vidas marinhas como resultado desses testes. Por extensão, vilas pesqueiras e suas populações que vivem de frutos do mar podem ser bastante afetadas por testes nucleares debaixo da água realizados a centenas de quilômetros da costa.
O método mais seguro para realizar um teste nuclear é sem dúvida o subterrâneo, mas "seguro" é um termo relativo. O teste subterrâneo oferece a possibilidade de contenção, mas conter uma explosão nuclear não é uma tarefa simples. A menor bomba nuclear possível atravessaria 20 metros de terra como se fosse papel de seda.
Uma bomba de um quiloton precisa estar pelo menos 90 metros abaixo do solo para que sua explosão seja completamente contida. Como comparação, o incidente de Castle Bravo envolvia uma bomba de 15 megatons. E essas profundidades são apenas estimativas, já que é impossível saber exatamente como uma nova tecnologia nuclear irá reagir até que seja testada. Até mesmo sob as condições mais rigorosamente controladas os testes nucleares subterrâneos podem chegar até a atmosfera, o que é o pior caso possível porque uma explosão nuclear subterrânea irradia toneladas de solo, que em seguida caem sobre tudo o que se encontra na área ao redor. O contato com o solo pode ser o aspecto mais prejudicial de uma explosão nuclear; então, se uma detonação nuclear subterrânea chegar até a superfície, você estará observando uma grande quantidade de precipitação radioativa.
![]() Foto cedida Administração Nacional de Segurança Nuclear dos EUA / Nevada Site Office Em 1970, o teste nuclear subterrâneo Baneberry, na Área de Testes de Nevada, liberou radioatividade na atmosfera. O Baneberry tinha uma carga nuclear de 10 quilotons e estava enterrado 275 metros abaixo da superfície. |
O último método de teste nuclear se enquadra na categoria de "Você está brincando?" ou "No que será que eles estavam pensando?": detonar uma bomba nuclear no espaço. Os Estados Unidos e a Rússia realizaram esses testes de alta altitude durante a Guerra Fria, enviando os aparelhos por meio de foguetes, com o intuito de testar a eficácia das armas para desativar satélites de inimigos.
![]() Foto cedida Departamento de Defesa dos EUA Explosão nuclear de alta altitude em 1962 |
Embora a precipitação radioativa na Terra não tenha sido um problema (a radiação é desviada pela atmosfera da Terra), eles pararam de realizar esses testes quando várias coisas ficaram evidentes:
- as explosões nucleares não conseguem diferenciar se um satélite é de um inimigo ou não;
- o desvio da radiação na atmosfera da Terra resultou em um poderoso pulso eletromagnético, que apagou sistemas elétricos em grandes cidades;
- as explosões deixavam faixas de radiação no espaço que apresentavam riscos a futuros vôos espaciais tripulados.
Além dos efeitos de longo alcance do teste nuclear, também existem grandes perigos para as pessoas envolvidas na realização desse teste. Mais de 4 mil trabalhadores de uma antiga área de testes francesa abriram processos contra o governo sob a alegação de que a exposição à radiação comprometeu a saúde deles. Muitos desses trabalhadores foram diagnosticados com casos sérios de câncer. A França realizou testes nucleares até 1996, um bom tempo depois da maioria dos outros países ter parado.
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