O superorganismo contra o gene egoísta

O biólogo evolutivo Richard Dawkins escreveu um livro chamado “O Gene Egoísta”, nos anos 70. Dawkins reordenou a evolução ao apontar que a seleção natural favorece a transmissão de genes e não do organismo em si. Assim que um organismo se reproduz com sucesso, a seleção natural deixa de se incomodar com o que acontece a seguir. Isso explica porque determinados traços estranhos continuam a existir - traços que parecem prejudicar os organismos, mas beneficiam os genes. Em algumas espécies de aranhas, a fêmea come o macho depois do acasalamento. No que tange à seleção natural, uma aranha macho que morre 30 segundos depois do acasalamento é tão bem sucedida quanto uma que vive. 

Desde a publicação de “O Gene Egoísta”, a maioria dos biólogos concorda em que as idéias de Dawkins explicam muito, mas não respondem tudo sobre a seleção natural. Um dos principais obstáculos para a aceitação da hipótese é o altruísmo. Por que as pessoas (e muitas espécies animais) fariam algo bom pelos seus semelhantes, mesmo que quando isso não lhes oferece qualquer benefício direto? Pesquisas demonstram que esse comportamento é instintivo e aparece sem treinamento em bebês humanos [fonte: CBC (em inglês)]. Também pode ser observado em algumas espécies de primatas. Então, por que a seleção natural favoreceria esse instinto de se ajudar aos outros?

Uma teoria que tenta explicar isso é a do parentesco. Pessoas aparentadas  compartilham de muitos genes e ajuda mútua garantiria que alguns desses genes fossem transmitidos. Imagine duas famílias de seres humanos primitivos, ambas competindo pelas mesmas fontes de alimento. Uma delas conta com os alelos do altruísmo - seus membros se ajudam mutuamente na caça e compartilham do alimento obtido. A outra não os porta - seus integrantes caçam separadamente e cada um deles come apenas o que apanha. O grupo cooperativo tem maior probabilidade de conquistar sucesso reprodutivo, transmitindo os alelos do altruísmo.

Os biólogos também estão explorando um conceito conhecido como superorganismo. Trata-se basicamente de um organismo composto de muitos organismos menores. O superorganismo modelo é uma colônia de insetos. Em um formigueiro, apenas a rainha e alguns dos machos transmitirão genes à geração seguinte. Milhares de outras formigas dedicam suas vidas ao trabalho e à defesa do formigueiro sem que tenham qualquer chance de transmitir diretamente os seus genes, no entanto seu trabalho contribuiu para o sucesso da colônia. Em termos do “gene egoísta”, isso não faria muito sentido, mas se considerarmos a colônia de insetos como um único organismo composto de diversas partes menores (os insetos), tudo ganha sentido. Cada formiga trabalha para garantir o sucesso reprodutivo do formigueiro como um todo. Alguns cientistas acreditam que o conceito dos superorganismos pode ser usado para explicar certos aspectos da evolução humana [fonte: Wired Science (em inglês)].

Traços vestigiais e atávicos

Todos os organismos portam traços que já não lhes conferem benefícios reais em termos de seleção natural. Caso o traço não prejudique o organismo, então a seleção natural não o elimina e eles podem persistir por gerações. O resultado são órgãos e comportamentos que já não servem aos seus propósitos originais. Esses traços são definidos como vestigiais.

O corpo humano oferece diversos exemplos deles. O cóccix é um resto da cauda de nossos ancestrais e a capacidade de abanar as orelhas é resquício de um primata que podia mover as orelhas a fim de determinar o ponto de origem de certos sons. As plantas também apresentam traços vestigiais. Muitas delas, que começaram se reproduzindo sexualmente (exigindo polinização por insetos), desenvolveram a capacidade de reprodução assexuada. Não precisam mais de insetos para polinizá-las, mas ainda assim produzem flores, cujo propósito original era atrair insetos.

Ocasionalmente, ocorre o reaparecimento de uma certa característica no organismo depois de várias gerações de ausência, o que se conhece como atavismo. Alguns seres humanos nascem com pequenas caudas (o que não é característica própria dos seres humanos). Há casos de baleias com patas traseiras. Já houve casos de cobras que apresentam o equivalente a unhas dos dedos dos pés, embora não tenham dedos ou pés.