Vários acidentes ocorreram ao redor do mundo com fontes radioativas que foram parar em depósitos de sucatas. Os casos mais graves envolvendo mortes ocorrem sempre com fontes que emitem radiação gama de alta energia e com atividade alta, geralmente de Cobalto-60 ou Césio-137, utilizadas em equipamentos para radioterapia em pacientes com câncer.
Nos últimos 25 anos, ocorreram 23 mortes de pessoas relacionadas ao trabalho com sucatas metálicas ao redor do mundo. O maior acidente radioativo aconteceu em Goiânia em setembro de 1987.
O acidente de Goiás
No final de 1985, o Instituto Goiano de Radioterapia mudou-se para novas instalações, levando uma unidade de radioterapia com uma fonte de Cobalto-60 e deixando nas instalações antigas um equipamento velho. Esse equipamento era utilizado para radioterapia em pacientes com câncer e continha em seu interior uma fonte radioativa de Césio-137 com atividade de aproximadamente 51 TBq. A atividade de uma fonte radioativa indica o número de desintegrações nucleares espontâneas por unidade de tempo, e sua unidade no sistema internacional é o Becquerel (Bq) que representa 1 desintegração por segundo, portanto a fonte tendo atividade de 51 TBq significa que emitia 51 x 1012 raios gama de alta energia por segundo, o que é uma altíssima intensidade de radiação. O abandono dessa fonte não foi notificado à autoridade brasileira regulamentadora, a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN). As instalações anteriores foram abandonadas e a unidade de radioterapia ficou totalmente insegura.
Dois anos após, em 13 de setembro de 1987, dois catadores de sucatas entraram no prédio abandonado, encontraram o equipamento, e não sabendo o que era, mas achando que poderia ter algum valor, removeram parte do equipamento para a casa de um dos catadores. Lá o equipamento foi desmontado e a fonte radioativa, constituída por uma cápsula de aço inoxidável que impedia o contacto com o pó radioativo, foi rompida com o uso de uma marreta. A fonte possuía aproximadamente 100 g de pó aglomerado de cloreto de césio, que é altamente solúvel e de fácil dispersão.
A contaminação do ambiente resultou na irradiação e contaminação externa e interna de várias pessoas.
Depois que a cápsula da fonte foi rompida, partes do equipamento foram vendidas para o dono de um ferro-velho. Ele notou que o material da fonte ficava azul no escuro. Esse efeito fosforescente acontecia em virtude da altíssima atividade específica da fonte. Várias pessoas ficaram fascinadas pelo material durante muitos dias. O pó foi mostrado a amigos e parentes. Fragmentos da fonte do tamanho de grãos de arroz foram distribuídos a várias famílias.
Quando os primeiros sintomas causados pela exposição à radiação surgiram (náuseas, vômitos, mal-estar e diarréia), não foram relacionados à radiação pelos médicos consultados.
Em 28 de setembro, duas mulheres das famílias envolvidas relacionaram o aparecimento das doenças à presença da fonte radioativa e levaram parte do pó, de ônibus, a um médico da Vigilância Sanitária de Goiás, que solicitou a presença do físico do órgão. No dia seguinte, o físico percebeu do que se tratava e a gravidade da situação e comunicou o fato à CNEN e à Secretaria da Saúde de Goiás.
![]() Imagem cedida pela IAEA |
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Goiânia tinha na época uma população de 1,2 milhão de habitantes e foram monitoradas 113 mil pessoas (aproximadamente 10% da população), sendo encontrados 249 indivíduos com contaminação significativa.
As doses recebidas pelas pessoas expostas à radiação foram:
| nº de pessoas | dose |
| 14 | 1 à 7 Sv |
| 54 | 0,25 à 1 Sv |
| 244 | 0,005 à 0,25 Sv |
| 2500 | < 0,005 Sv |
| Ano | País | Tipo de fonte | Mortes |
| 1992 | China | Fonte perdida de Co60 | 3 |
| 1994 | Estônia | Fonte roubada | 1 |
| 2000 | Tailândia | Fonte perdida de Co60 | 3 |
| 2001 | Egito | Fonte perdida de Co60 | 2 |
O acidente ocorrido em Samut Prakarn, na Tailândia, em 2000 mostra bem a dificuldade encontrada por trabalhadores em identificar a presença de material radioativo em depósitos de sucata. Na Tailândia, na época, só havia 20 centros de radioterapia, onde havia 25 unidades de radioterapia em operação. Uma empresa sediada em Bangkok possuía vários equipamentos de radioterapia sem autorização do órgão regulador da Tailândia, a OAEP – Thailand Office of Atomic Energy for Peace.
Em meados de 1999 a empresa retirou de um armazém alugado algumas blindagens contendo fontes radioativas e as colocou num local sem vigilância, sem a autorização da OAEP. Em janeiro de 2000, alguns indivíduos entraram naquele local e desmontaram parcialmente uma das blindagens. Eles levaram o equipamento para a residência de um deles, onde quatro pessoas continuaram a desmontá-lo. A blindagem possuía o trifólio, símbolo que indica a presença de radiação e uma etiqueta de advertência, porém os indivíduos não sabiam que o trifólio indicava a presença de material radioativo, e a etiqueta de advertência não estava em um idioma que eles entendessem.
No dia 1º de fevereiro de 2000, dois dos indivíduos levaram o dispositivo parcialmente desmontado a um ferro-velho em Samut Prakarn. Enquanto o trabalhador do ferro-velho estava desmontando o equipamento usando uma tocha de oxiacetileno a fonte radioativa caiu e não foi percebida pelos trabalhadores do depósito ou pelos outros indivíduos envolvidos.
Em meados de fevereiro de 2000 de fevereiro, alguns dos envolvidos começaram a se sentir mal e procuraram assistência médica. Médicos de um hospital local reconheceram os sintomas de alguns dos pacientes (mal-estar, náuseas, vômitos, diarréia) e suspeitaram que a causa pudesse ser a exposição à radiação, e informaram suas suspeitas para a autoridade regulatória (OAEP). Técnicos da autoridade regulatória ajudados por outros técnicos e por pessoal dos órgãos da saúde iniciaram a busca da fonte. Quando níveis de radiação altos foram medidos nas imediações do ferro-velho, a área foi isolada. Uma equipe de resgate foi reunida e, em 20 de fevereiro de 2000, a fonte foi recuperada e transportada a um local de armazenamento seguro. Os testes mostraram que a cápsula da fonte não tinha sido rompida e que não havia ocorrido a contaminação do ambiente. A atividade da fonte recuperada foi calculada como sendo de 15,7 TBq de Co60. Deste acidente resultaram 3 mortes e mais 7 pessoas com sintomas graves, que após tratamento se recuperaram.