Como funcionam os porta-aviões

Autor: 
Tom Harris
­porta-aviões

Quando a marinha americana quer impressionar as pessoas, basta aparecer com um dos seus super porta-aviões. Projetando-se por 20 andares acima da água e estendendo-se por 333 metros de proa à popa (tão longo quanto a altura do edifício Chrysler de 77 andares), seu tamanho é assustador. Mas o tamanho não é o mais impressionante, e sim o cenário de intensa movimentação no convés de vôo. Quando a tripulação está em pleno vapor, pode lançar ou recolher um avião a cada 25 segundos, em apenas uma fração de espaço de uma pista de pouso normal.

Neste artigo, descobriremos tudo sobre o moderno porta-aviões da classe Nimitz da Marinha americana. Veremos o que acontece nos diferentes conveses, analisaremos as fantásticas máquinas que ajudam a lançar e a recolher as aeronaves e aprenderemos um pouco sobre como é o dia-a-dia a bordo dessa enorme base flutuante. Conforme veremos, o porta-aviões moderno é um dos veículos mais sensacionais já criado.

Em seu nível mais básico, um porta-aviões é simplesmente um navio equipado com um convés de vôo, uma área livre para decolagens e pousos de aviões. Esse conceito é quase tão antigo quanto os próprios aviões. Em menos de dez anos após o vôo histórico dos irmãos Wright em, 1903 (em inglês), os Estados Unidos, o Reino Unido e a Alemanha estavam realizando testes com lançamentos de vôos em plataformas de navios de guerra. Os experimentos foram um sucesso e várias forças navais começaram a adaptar os navios de guerra para esse propósito. Os novos transportadores possibilitavam o transporte de aeronaves militares de curto alcance para qualquer lugar do mundo.


Foto cedida pelo U.S. Department of Defense
O USS George Washington, um dos super porta-aviões nucleares da Marinha dos EUA

Os porta-aviões não desempenharam um papel significativo na Primeira Guerra Mundial, mas foram o elemento principal de combate aéreo na Segunda Guerra Mundial. Por exemplo, os japoneses realizaram o ataque a Pearl Harbor em 1941 (em inglês) com vários porta-aviões. Hoje, os super porta-aviões são uma peça-chave em quase todas as principais operações militares americanas. Embora o navio em si não possua grande utilidade como arma, o seu poderio aéreo faz toda a diferença entre vencer e perder.


Foto cedida pelo U.S. Dept. of Defense
O USS Nimitz, um super porta-aviões da Marinha dos EUA

Um dos maiores obstáculos no uso do poderio aéreo em guerras é transportar os aviões até o seu destino. Para manter uma base aérea em um território estrangeiro, os Estados Unidos (ou qualquer outra nação) devem fazer acordos especiais com o país anfitrião e seguir a legislação local, sujeita as alterações ao longo dos anos. É dispensável mencionar que esse procedimento pode ser bastante complicado em alguns lugares do mundo.

Segundo as leis internacionais de liberdade de navegação (em inglês), os porta-aviões e outros navios de guerra são reconhecidos como territórios soberanos em praticamente qualquer oceano. Desde que o navio não se aproxime muito da costa de qualquer outro país, a tripulação pode navegar como se estivesse em casa. Então, ao invés da Marinha dos EUA fazer acordos especiais com o país estrangeiro para instalar uma base militar, ela apenas movimenta um grupo tarefa nucleado em porta-aviões (frota formada por um porta-aviões e mais sete ou oito navios de guerra) livremente por todo o globo, como se fosse uma pequena parte dos EUA. Bombardeiros, caças e outras aeronaves podem sobrevoar o território inimigo para realizar uma infinidade de missões e depois voltar para a base. Na maioria dos casos, a Marinha pode reabastecer (suprir) o grupo de forma contínua, permitindo que ele mantenha a sua posição indefinidamente.

Os porta-aviões podem navegar a uma velocidade superior a 35 nós (40 mph ou 64 km/h), o que lhes permite chegar a qualquer parte do oceano dentro de poucas semanas. Os Estados Unidos possuem atualmente seis esquadrões dispersos pelo mundo, prontos para entrar em ação assim que requisitados.

Usando o jargão
Os navios possuem uma linguagem própria, especialmente quando se trata de pontos específicos. Aqui está uma pequena lista, caso você não conheça.
  • Popa - a parte traseira do navio.
  • Proa - a parte da frente do navio.
  • Boreste - o lado direito do navio de quem olha para a proa.
  • Bombordo - o lado esquerdo do navio.
  • Avante - movimentar-se em direção à proa do navio, como em "Movendo-se avante no convés de vôo" ou "O convés do hangar fica avante da popa.").
  • À popa - mover-se em direção à popa do navio.
  • Dentro do navio (Inboard) - movimentar-se em direção ao centro do návio.
  • Fora do navio (Outboard) - mover-se do centro do navio para suas extremidades.
  • Tombadilho - a área da popa do convés principal (o convés do hangar em um porta-aviões).

 

Com cerca de um bilhão de peças individuais, os super porta-aviões americanos da classe Nimitz estão entre as máquinas mais complexas do planeta. Contudo, em nível conceitual, eles são bastante simples. Eles foram projetados para realizar quatro funções básicas:

  • transportar uma variedade de aeronaves além-mar
  • servir de pouso e decolagem para aviões
  • operar como um centro de comando móvel para operações militares
  • abrigar todas as pessoas envolvidas nessas atividades

Para cumprir essas tarefas, um porta-aviões deve combinar elementos de um navio, de uma base de força aérea e de uma pequena cidade. Dentre outros, ele precisa ter:

 

  • um convés de vôo, uma superfície plana no alto do navio onde as aeronaves decolam e aterrissam;
  • um convés de hangar, uma área coberta para armazenar as naves que não estão em uso;
  • uma ilha, uma construção no alto do convés de vôo de onde os oficiais podem monitorar os vôos e o navio;
  • espaço para a tripulação morar e trabalhar;
  • uma casa de força com sistema de propulsão para locomover o navio de um ponto a outro e gerar eletricidade para a embarcação;
  • diversos outros sistemas para prover alimentação e água potável e gerenciar aspectos que qualquer cidade tem que lidar, tais como: esgoto, lixo e correio, assim como estações de rádio e de televisão e jornais;
  • o casco, a parte principal do navio, que flutua na água.

O diagrama abaixo mostra como esses componentes se interligam.

O casco de um navio é feito de um aço extremamente forte, medindo algumas polegadas de espessura. Ele é bastante eficiente na proteção contra fogo e danos de guerra. A estrutura de apoio do navio depende de três estruturas horizontais que se estendem por todo o casco: quilha (o esqueleto de ferro na parte inferior do navio), o convés de vôo e o convés do hangar.

A parte do casco que fica imersa na água é arredondada e relativamente estreita, enquanto a parte que fica acima da água se alonga, formando um espaço maior no convés de vôo. A parte inferior do navio é dotada de um fundo duplo, que é precisamente o que a expressão sugere. Há duas camadas de chapas de aço: a chapa inferior e a camada acima dela são separadas por um espaço vazio. O fundo duplo oferece uma proteção extra contra torpedos ou acidentes no mar. Se o inimigo atingir a parte inferior do navio, fazendo um buraco na camada de aço externa, a segunda camada evitará um vazamento de grandes proporções.

Desde os anos 50, quase todos os super porta-aviões americanos foram construídos pela Northrop Grumman Newport News (em inglês), de Newport News, na Virgínia. Para tornar o processo de construção mais eficiente, quase todos os super porta-aviões são montados em peças modulares separadas, chamadas superlifts. Cada superlift pode conter vários compartimentos (salas), englobando conveses múltiplos e pesando em torno de 80 a 900 toneladas (aproximadamente 70 a 800 toneladas métricas). O super porta-aviões é composto de quase 200 superlifts separados.


Foto cedida pela Northrop Grumman Newport News


Foto cedida pela Northrop Grumman Newport News
O USS Ronald Reagan, em construção na doca seca do Northrop Grumman Newport News

Antes de colocar os módulos no navio, a equipe de construção reúne todo o corpo de aço e instala quase toda a fiação e as tubulações. Em seguida, eles usam um guindaste rolante para içar o módulo e arriá-lo precisamente na posição correta no navio. Então, a equipe solda o módulo aos adjacentes. Perto do fim da construção, o último módulo é colocado no convés de vôo: a ilha, pesando 575 toneladas.


Foto cedida pela U.S. Navy


Foto cedida pela U.S. Navy
Colocando os superlifts em posição
no USS Harry S. Truman

Assim como um barco com motor comum, um porta-aviões se desloca na água por meio de hélices giratórias. É evidente que com cerca de 6,5 metros de largura, as 4 hélices propulsoras de bronze são de um padrão completamente diferente de um barco de recreação. Elas também contam com uma potência muito maior. Cada hélice é montada em um eixo longo que se conecta a uma turbina a vapor acionada por um reator nuclear.

Os dois reatores nucleares do porta-aviões, alojados em uma área com forte blindagem e completamente restrita no meio da embarcação, geram vapor de alta pressão para rotacionar as palhetas do compressor da turbina. O compressor aciona o eixo da turbina, que faz as hélices propulsoras girar para impulsionar o navio para frente, enquanto gigantescos timões manobram o navio. O sistema de propulsão gera algo em torno de 280 mil cavalos de força (a Marinha não divulga dados precisos).

As quatro turbinas também geram eletricidade para energizar os diversos sistemas elétricos e eletrônicos. Isso inclui uma usina de dessalinização que pode transformar 400 mil galões (~1.500 mil litros) de água salgada em água potável; quantidade suficiente para abastecer 2 mil casas.

Diferente dos antigos porta-aviões de caldeiras a óleo, os modernos porta-aviões nucleares não precisam de reabastecimento regular. De fato, eles podem se manter por 15 a 20 anos sem reabastecimento. A contrapartida é uma casa de força mais dispendiosa, um processo de reabastecimento mais longo e complicado (demora vários anos) e o risco adicional de um desastre nuclear no mar. Para minimizar o risco de tal catástrofe, os reatores possuem um forte escudo protetor e são monitorados constantemente.

Valores enormes
As estatísticas ilustram um quadro bem preciso do porte de um porta-aviões da classe Nimitz.

Retirado do USS Theodore Roosevelt web.

  • Altura total, da quilha ao topo do mastro - 74 metros (~244 pés), da altura de um edifício de 24 andares.
  • Deslocamento com carga total (o peso de água deslocado pelo navio no modo combate) - 97 mil toneladas (~88 mil toneladas métricas).
  • Peso da estrutura de aço - 60 mil toneladas (~54 mil toneladas métricas).
  • Área total do convés de vôo - 4,5 acres (~1,8 hectares).
  • Comprimento do convés de vôo - 333 metros (~1.092 pés).
  • Largura do convés de vôo (na maior extensão) - 78 metros (~257 pés).
  • Números de compartimentos e espaços a bordo - mais de 4 mil.
  • Peso de cada âncora - 30 toneladas (~27 toneladas métricas).
  • Peso de cada elo da amarra da âncora - 160 kg (~360 libras).
  • Peso de cada hélice - 30 mil kg (~66.200 libras).
  • Peso de cada leme - 45,5 toneladas (~41 toneladas métricas).
  • Capacidade de estocagem de combustível de aviação - 3,3 milhões de galões (~12,5 milhões de litros).
  • Número de telefones a bordo - mais de 2.500.
  • Número de televisores a bordo - mais de 3 mil.
  • Total da extensão do cabeamento elétrico a bordo - mais de 1.600 km (mais de 1 mil milhas).
  • Ar condicionado, capacidade total - 2.250 toneladas (~2.040 toneladas métricas, o suficiente para refrigerar 500 casas).

Retirado do USS Nimitz Web.

  • Capacidade de armazenamento de alimentos congelados e/ou desidratados: o suficiente para alimentar 6 mil pessoas por 70 dias.
  • Correspondência encaminhada manualmente pelo correio de bordo - 450 mil kg (~1 milhão de libras).
  • Número de dentistas - 5.
  • Número de médicos - 6.
  • Leitos hospitalares - 53.
  • Número de capelães em capelas ecumênicas - 3.
  • Número de cortes de cabelo semanais - mais de 1.500.
  • Número de barbearias - 1.