Na quinta-feira, 23 de novembro de 2006, o antigo espião russo Alexander Litvinenko morreu em um hospital de Londres vítima de envenenamento por radiação. Os médicos determinaram que ele recebeu uma dose letal do isótopo radioativo polônio 210, que eles encontraram em sua urina antes dele morrer. Desde então, as autoridades encontraram vestígios de radiação, na maioria dos casos abertamente atribuídas ao polônio 210, em no mínimo dez lugares que se sabe terem sido visitados pela vítima depois dela ter começado a adoecer em 1º de novembro. Alguns dos locais são a casa de Litvinenko, um restaurante, um hotel, o conjunto de escritórios de uma empresa de segurança e o escritório de um dos amigos de Litvinenko. Além disso, os cientistas encontraram traços de radiação em dois jatos da British Airways que voaram entre Londres e Moscou nas semanas antes da morte de Litvinenko. Ondas de preocupação se espalharam pela Inglaterra: as dezenas de milhares de pessoas que estiveram nesses edifícios ou nesses aviões no último mês correm o risco de sofrer envenenamento por radiação?


AP Photo/Alistair Fuller
Ex-espião da KGB Alexander Litvinenko em sua casa em Londres em 2002
O polônio 210 é um isótopo do elemento polônio e é altamente radioativo. Em quantidades de vestígios, parece ser muito inócuo: ocorre naturalmente no meio ambiente em minério de urânio e também em nossos corpos e em certos alimentos em quantidades diminutas. Você também encontrará o polônio 210 em cigarros e outros produtos do tabaco, embora ainda não esteja claro quanto do isótopo há neles. Na década de 80, o chefe da saúde pública norte-americano C. Everett Koop atribuiu 90% das mortes relacionadas ao tabagismo à radiação em oposição ao alcatrão.

Todavia, o tipo de envenenamento experimentado por Alexander Litvinenko exige uma dose muito mais alta do que você encontraria em qualquer um desses lugares: no mínimo algumas microgramas, de acordo com o cientista Nick Priest, que certa vez trabalhou com a Autoridade de Energia Atômica do Reino Unido. O fato de poucas microgramas serem uma dose grande e letal de polônio 210, é um testamento de sua extrema radioatividade. Ele se espalha pelo corpo muito rapidamente, atacando as células e destruindo os órgãos. Ele também tem uma vida muito curta, dificultando sua detecção depois que o envenenamento ocorre.

Embora vários milhares de britânicos, sendo a maioria o pessoal do hospital que tratou Litvinenko, membros da tripulação da British Airways e as pessoas que entraram em contato próximo com ele antes de adoecer, tenham sido encaminhados para exames, a maioria dos especialistas diz que o risco de contaminação derivado da exposição indireta ao polônio 210 é muito, muito baixo. O Polônio 210 emite radiação alfa, que tem um alcance muito curto. Os raios alfa podem ser detidos por uma folha de papel. Eles não conseguem nem penetrar em uma camada da pele, portanto as pessoas que simplesmente estiveram no mesmo ambiente que Litvinenko ou esbarraram nele não correm o risco de envenenamento por radiação. Segundo os médicos, o único caso de contato simples que poderia resultar na transferência de polônio 210 de uma pessoa para outra seria se a pessoa envenenada estivesse coberta de seu próprio suor, vômito, fezes ou urina e se chocasse com uma ferida aberta de outra pessoa. Ou seja, a inalação e ingestão da própria substância, seja na forma pura ou em fluidos corporais de uma pessoa envenenada, são as únicas formas ser envenenado por radiação do polônio 210. Segundo o secretário do interior do Reino Unido, John Reid, todas as pessoas examinadas em busca de radiação em 30 de novembro obtiveram um resultado negativo.

Parece ser improvável que alguém fosse envenenado estando muito próximo de Litvinenko ou em um dos espaços confinados descobertos contaminados com radiação residual. Não somente os raios alfa do polônio 210 são muito fáceis de bloquear, mas é preciso mais do que quantidades residuais de polônio 210 para prejudicar alguém.

Em doses letais, contudo, o polônio 210 é poderoso. De acordo com as fontes no Laboratório Nacional de Los Alamos, é 250 bilhões de vezes mais mortal que o ácido cianídrico. Litvinenko morreu poucas semanas depois de adoecer e os médicos não puderam fazer nada para salvá-lo.

O mistério do assassinato de Litvinenko atingiu diretamente o Kremlin: antes de morrer, Litvinenko acusou o presidente russo Vladmir Putin de tê-lo envenenado. O ex-agente da inteligência era um duro crítico do governo russo e dizem que esteve investigando o assassinato da jornalista russa Anna Politkovskaya, também uma declarada crítica do governo. O governo russo nega totalmente qualquer envolvimento no envenenamento. Mas muitos especialistas dizem que quantidades letais de polônio 210 não são fáceis de se conseguir, a menos que você tenha acesso a um reator nuclear, o que torna o governo e o pessoal militar os mais prováveis suspeitos que a média de seus cidadãos. Essa raridade, contudo, pode ser camuflada pelos anúncios de certas empresas que dizem vender isótopos radioativos como o polônio 210 por cerca de US$ 70 na Internet. Não fica imediatamente claro quanto polônio 210 está incluído nesses tipos de pacotes ou se os isótopos são verdadeiros.

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