Dentro da dionéia

As plantas carnívoras são capazes de:
  • atrair insetos
  • capturar insetos rastejantes pequenos
  • diferenciar entre alimento e não alimento
  • digerir a presa
Todas essas etapas são levadas a cabo por meio de processos mecânicos e químicos simples. Ao contrário de nós, plantas não possuem cérebro ou sistema nervoso para coordenar suas funções fisiológicas e dizer que estão com fome, de forma a ir comprar um sanduíche na lanchonete mais próxima. As plantas também não possuem músculos e tendões complexos para agarrar, mastigar, engolir e processar o alimento. A dionéia executa todo o processo por meio de um conjunto de folhas especializadas que são boca e estômago ao mesmo tempo.


Foto cedida por Peter D'Amato
Uma dionéia da empresa de paisagismo California Carnivores

Sedução da presa
A maioria das plantas possui algum mecanismo para atrair animais e insetos, não importa a maneira como vão se banquetear com seus convidados. Por exemplo, plantas não carnívoras desenvolveram odores intensos ou seivas tipo xarope para atrair abelhas, borboletas e outros insetos; esses insetos são então usados pelas plantas para transportar o pólen necessário para fertilizar as plantas vizinhas da mesma espécie. No caso da dionéia, as folhas que formam a armadilha secretam um doce néctar que atrai os insetos que procuram alimentos.

Captura da presa
Quando um inseto pousa ou rasteja na armadilha, é provável que ele toque em um dos seis pêlos curtos e duros da superfície da armadilha. Eles são chamados de pêlos sensitivos e servem como um primitivo detector de movimentos para a planta. Se dois desses pêlos forem roçados em rápida sucessão ou um pêlo for tocado duas vezes, as folhas se fecham sobre o inseto em meio segundo.

O que faz com que as folhas se fechem? Ninguém sabe exatamente como o estímulo mecânico seqüencial de um pêlo sensitivo é convertido no fechamento da armadilha. A hipótese mais aceita é que:

  1. as células de uma camada interna da folha estão muito comprimidas. Isso cria tensão no tecido da planta que mantém a armadilha aberta;
  2. o movimento mecânico dos pêlos sensitivos acionam mudanças, impulsionadas pela ATP, na pressão da água dentro dessas células;
  3. as células são levadas a se expandir pela crescente pressão da água e a armadilha se fecha assim que o tecido da planta relaxa.


Foto cedida por David Webb e Botanical Society of America
Um inseto rastejando nas folhas tipo mandíbula da dionéia

É comestível?
Mesmo sem cérebro para analisar o que está comendo, a dionéia consegue diferenciar entre insetos e detritos não comestíveis que possam cair na sua armadilha. Essa etapa também é mediada por seis sensíveis pêlos sensitivos. Um inseto que caia dentro da armadilha parcialmente fechada continuará a se debater na tentativa de escapar. Isso garante que ao menos um (se não todos) dos pêlos sensitivos seja tocado pelos movimentos do inseto. Isso é o sinal para fechar totalmente a amadilha.

Objetos inanimados como pedras, galhos e folhas que caiam na armadilha ou objetos que sejam colocados lá (que criança consegue resistir em colocar a ponta do lápis dentro da armadilha para vê-la fechar?), não se movimentarão, logo não dispararão os pêlos sensitivos. Se não houver estímulo adicional do pêlo, a armadilha permanece em seu estado parcialmente fechado até que a tensão possa ser restabelecida nas folhas da armadilha. Esse processo demora cerca de 12 horas, ao final das quais as folhas voltam a se abrir. O objeto não desejado cai assim que a folha reabre ou é banido da armadilha pelo vento.

Obviamente, o processo de seleção não é perfeito; enquanto a armadilha estiver fora de funcionamento, alimentos reais na forma de moscas e aranhas podem rastejar pela planta. Imagine se você tivesse que ficar sentado por doze horas com um osso de galinha em sua boca enquanto o restante de sua refeição permanecesse na mesa à sua frente! A diferença é que você tem consciência do que come, enquanto que a dionéia é participante passiva na escolha do que vai comer no jantar. O processo é, na verdade, uma maneira elegante da dionéia resolver dois problemas:

  • falta de um cérebro para informar que está às voltas com algo não comestível
  • falta de músculos para cuspir fora
Na seção seguinte, falaremos cobre a característica final da planta carnívora: a digestão da presa. Vejamos o que ocorre quando a armadilha se fecha em cima de algo comestível.