Oppenheimer: fabricando a bomba atômica
O
Projeto Manhattan era dirigido pelo corpulento e impetuoso general Leslie Groves, um homem com personalidade totalmente oposta a de Oppenheimer. Mas, surpreendentemente, os dois se deram muito bem. A primeira sugestão do físico foi que o desenvolvimento da bomba se concentrasse em um único lugar. Mais precisamente em Los Alamos, no Novo México. Um local a dois mil metros de altitude no meio do deserto, sem nada ou ninguém no entorno até onde os olhos pudessem alcançar. O lugar foi então transformado num complexo industrial cuja construção foi supervisionada por Groves, que havia sido o responsável por construir o prédio do Pentágono.
Los Alamos acomodou três mil pessoas, entre elas estavam os mais brilhantes jovens cientistas dos Estados Unidos, que foram persuadidos por Oppenheimer a irem trabalhar lá. O Projeto Manhattan acabou por juntar em Los Alamos o maior grupo de intelectuais já reunido em qualquer época. Mas quando os trabalhos começaram, relatórios encaminhados pelos serviços de inteligência ao general Groves apontavam que Oppenheimer era um espião e que sua namorada era do Partido Comunista. Groves exigiu uma explicação do físico e ficou impressionado com a franqueza e as convicções de Oppenheimer.
Naqueles anos, o físico conheceria Kitty Harrison, uma princesa alemã naturalizada americana de 33 anos de idade. Eles logo se casaram e em 1941 nasceu o primeiro filho do casal. Mas em suas idas a Berkeley para supervisionar a transferência de equipamentos e o recrutamento de pessoal, Oppenheimer visitava sua antiga namorada comunista e muitas vezes dormia no apartamento dela. Ele era vigiado de perto pelo
FBI, que sob a liderança de J. Edgar Hoover não admitia que na liderança de um projeto de tal importância estivesse um comunista e adúltero. Em 1944, Jean Tatlock suicidou-se. Em casa, a esposa de Oppenheimer se embebedava. A vida pessoal do homem que liderou a construção da bomba atômica não era das mais tranquilas.
Sob forte pressão, os gênios reunidos em Los Alamos tentavam encontrar o caminho entre a fissão nuclear e a construção da bomba atômica. Além disso havia problemas também na produção do material que deveria alimentar a bomba. Àquela altura, além do urânio eles já começavam a trabalhar também com plutônio, um implacável assassino radiológico (0,13 miligramas do elemento é mortal para um ser humano). Em 1943,
Niels Bohr chegou aos Estados Unidos, junto com um grupo de cientistas britânicos, e avisou Oppenheimer do estágio avançado em que se encontravam os nazistas na corrida para construção da bomba.
Finalmente no final de 1944, os cientistas pareciam ter encontrado a solução para a detonação uniforme do material físsil, o grande obstáculo até então para chegarem à arma nuclear. Em 1945, a primeira bomba atômica estava pronta para ser testada. Às 5h30 de 6 de julho, no deserto do Novo México, um clarão intenso iluminou a madrugada e uma onda de choque assustadora atingiu todo o vale fazendo a terra estremecer. Uma imensa nuvem em formato de cogumelo surgiu logo após uma bola de fogo mais brilhante do que o Sol ter aparecido no céu. Oppenheimer ficou aterrorizado e à sua mente vieram as palavras do Bhagavad-Gita: “Transformei-me na Morte, a destruidora dos mundos”. A bomba que eles previram ter o poder explosivo equivalente a cinco mil toneladas de TNT alcançou, na verdade, 20 mil toneladas de TNT.
Àquela altura, a Alemanha nazista já tinha se rendido e o presidente norte-americano já não era mais Roosevelt e sim Truman. Mas no Projeto Manhattan a única coisa que mudou foi o alvo da bomba que passou a ser o Japão. Um mês após a explosão teste no deserto do Novo México, um bombardeio americano lançou “Little Boy”, uma bomba atômica de urânio, sobre Hiroshima e, três dias depois, “Fat Man”, uma bomba atômica de plutônio caiu sobre Nagasaki. Os japoneses se renderam no dia seguinte. A Segunda Guerra Mundial terminava e o mundo ingressava na Era Nuclear.
Em outubro de 1945, Oppenheimer se demitiu de Los Alamos. Dois anos depois, o pai da bomba foi nomeado presidente do Comitê Geral Consultivo da Comissão de Energia Atômica e assumiu a chefia do Instituto de Estudos Avançados, o melhor centro de pesquisa teórica do mundo que reunia cientistas como
Einstein, von Neumann e Gödel. Quando a
Guerra Fria começou a esquentar e o
macarthismo tomou conta dos Estados Unidos, Oppenheimer voltou a ser alvo de suspeitas. Após prestar sarcásticos depoimentos a várias comissões de investigação, Oppenheimer foi demitido de seus cargos governamentais e continuou sob vigilância permanente do FBI. Em 1963, o presidente Kennedy concedeu o perdão público a Oppenheimer ao indicá-lo ao Prêmio Enrico Fermi. Em 18 de fevereiro de 1967, Julius Robert Oppenheimer morreu de câncer na garganta.