Refazendo a Escalada do Homem

Selo Reader’s

Quase 150 anos após Charles Darwin ter divulgado sua teoria da evolução, muitos conceitos equivocados sobre nossas origens ainda permanecem.

A primeira edição de Sobre a Origem das Espécies não faz menção explícita à evolução humana. O naturalista britânico Charles Darwin, que publicou o livro em 1859, afirma apenas que “será lançada luz sobre a origem do homem e sua história”. O tenso jovem cientista preferiu induzir os leitores a tirarem suas próprias conclusões. E foi o que eles fizeram.

Ao ouvir a teoria, diz-se que a esposa do bispo de Worcester teria exclamado: “Querido, esperemos que isso não seja verdade, mas, se for, vamos rezar para que não seja do conhecimento de todos.” No entanto, condenada nos púlpitos das igrejas de toda a Grã-Bretanha e debatida em artigos e charges de jornal, a teoria rapidamente ganhou notoriedade. Na mente popular, reduziu-se ao seguinte simplismo: “o homem descende dos macacos”, um conceito impreciso que ainda é o corrente nos nossos dias. Após tanto escândalo e controvérsia, Darwin deve ter concluído que deveria ir mais fundo na questão em edições posteriores, pois promoveu uma relevante alteração na passagem já citada: “será lançada muita luz sobre a origem do homem...”

Ao contrário do que a opinião pública concluiu a partir da frase “o homem veio dos macacos”, o homem não descende de chimpanzés ou gorilas. Em algum lugar do passado, partilhamos com tais símios um ancestral comum. Embora não pareça, esse detalhe é crucial para entender a evolução do homem e para marcar nossa posição na natureza. Ao olhar para chimpanzés e gorilas, não encaramos nossos ancestrais, mas primos modernos.

Esse equívoco é reforçado há muito pela “Escalada do Homem”, ilustração exibida em livros e enciclopédias em que a suposta seqüência de ancestrais do homem moderno é exibida como uma fila indiana de primatas, sugerindo um único estágio evolucionário dos símios ao homem – uma conexão direta que simplesmente não existe. A maioria dos cientistas redesenharia hoje a ilustração para exibir a grande diversidade de espécies, das quais apenas uma é a ancestral comum de humanos e grandes símios modernos. A partir de um pequeno grupo, um processo de adaptação levou até nós, os hominídeos. De outro desses grupos vieram os grandes macacos.

Mesmo com essa ressalva, talvez seja melhor abandonar aquela ilustração, pois ela dá margem a outro erro de interpretação. A progressão exibida pela “Escalada” sugere um bebê humano aprendendo primeiro a engatinhar, e em seguida a andar. Mostra um Homo sapiens, ou homem moderno, ereto sobre os dois pés, destacando-se nobremente da postura curvada de um tosco primata ancestral. Análises mais precisas de fósseis e o novo campo do DNA, porém, alteraram tal visão de forma inexorável.

Nossos ancestrais não eram bem assim...

A progressão gradual da postura quadrúpede para bípede, como exibida abaixo, está quase com certeza errada. Nossos ancestrais estavam aptos a andar eretos bem antes do que se supunha quando a primeira ilustração da série “Escalada do Homem” foi publicada. De fato, como os chimpanzés de hoje, nossos ancestrais primatas provavelmente já podiam se erguer sobre duas pernas sempre que lhes conviesse.
Não há evidência de uma criatura que andasse “curvada para a frente”, numa postura entre quadrúpede e bípede, como ilustram a segunda, terceira e quarta figuras da fila. Outro erro comum em muitos dos primeiros diagramas era incluir os neandertais como parte da linhagem. Eles não eram nossos ancestrais, pois descendemos diretamente de um tipo de Homo erectus, assim como eles.

De pé para vencer

O apoio sobre os nós dos dedos é a característica do andar quadrúpede de chimpanzés e gorilas. Embora vivam principalmente no solo, costumam também escalar árvores. Conforme se balançam nas copas, seus pés e mãos envolvem os galhos, com o polegar separado para agarrar. Aparentemente essa forma especializada de andar se desenvolveu em algumas espécies de primatas, enquanto outras experienciaram o bipedalismo. Há diversas vantagens na postura bípede. Simulações em computador mostraram que em velocidades baixas os primatas deslocam-se de modo muito mais eficiente sobre dois pés do que como quadrúpedes. Ou seja, conseguem cobrir distâncias maiores gastando menos energia.

A capacidade de cobrir mais terreno durante o dia deve ter fornecido o apoio adaptativo crucial para os grupos isolados de primatas dos quais evoluímos. Andar sobre os dois pés libera as mãos para transportar comida, e parece provável que a competição intensa por alimentos da floresta levou à necessidade de que a comida coletada fosse trazida do terreno aberto para a segurança da floresta. Isso explica a adaptação, mas as pesquisas prosseguem no sentido de determinar que ambientes os australopitecíneos preferiam.

Outra teoria que ganha apoio analisa como as criaturas enfrentavam o sol africano quando deixavam as árvores para coletar alimentos na savana. Numa postura ereta, o corpo absorve muito menos radiação solar do que sobre quatro membros, de modo que a posição bípede pode ter capacitado essas criaturas a permanecer mais tempo expostas ao sol.

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