![]() Um sarcófago aberto revela os restos mumificados existentes no interior |
Na maioria dos ambientes, os primeiros estágios de decomposição começam em algumas horas, e são marcados pela autólise, processo no qual os órgãos que contêm enzimas digestivas (os intestinos, por exemplo) começam a digerir a si mesmos.
Depois da autólise vem a putrefação, na qual as bactérias começam a decompor a matéria orgânica. Em climas temperados, a putrefação começa cerca de três dias após a morte, fazendo com que o corpo seja reduzido a um esqueleto dentro de alguns meses. Em temperaturas mais quentes e úmidas, no entanto, esse processo é acelerado porque as bactérias se reproduzem mais rapidamente nessas condições. Quando o clima é mais frio e seco, a velocidade do processo é retardada, pois as bactérias precisam de calor e água para prosperar (é por isso que usamos geladeiras para preservar os alimentos). Se as condições estiverem frias ou secas o bastante, ou caso não haja oxigênio suficiente, o ambiente fica tão inóspito que poucas bactérias conseguem sobreviver, fazendo que o corpo não se decomponha completamente por milhares de anos.
Há várias circunstâncias que podem levar à mumificação. Na natureza, corpos já foram preservados no gelo de geleiras, nas profundezas sem oxigênio de turfeiras e no solo árido do deserto. O "homem de gelo", descoberto em 1991 por turistas nos Alpes italianos, é uma das múmias naturais mais incríveis já encontradas. Trata-se de um cadáver de 5.300 anos de idade, encontrado com ferramentas preservadas em perfeito estado, que morreu em um vão, no meio das rochas, que rapidamente se encheu de neve. O que essa circunstância fez, basicamente, foi criar uma geladeira natural que preservou os tecidos do corpo. Essa simples múmia forneceu muitas informações sobre a Idade do Cobre na Europa, incluindo algumas referentes a tecnologia, saúde e práticas de tatuagem.
Em certos casos, as múmias naturais alteraram significativamente nossa concepção da história. Por exemplo, múmias encontradas no Deserto de Taklimakan, na China, forneceram várias dicas sobre a linhagem dos habitantes modernos daquela região, pois a estrutura dos rostos das múmias mostraram que os habitantes da região tinham ascendência indo-européia. Um homem, que viveu por volta do ano 1.000 a.C., tem uma interessante tatuagem em forma de raio de Sol na têmpora, uma figura muito semelhante a um antigo símbolo de um deus indo-iraniano. Esse fato, junto a outras evidências preservadas com as múmias, indica que a região foi colonizada por mercadores indo-europeus séculos antes de a dinastia chinesa de Han chegar ao local.
No caso dessas múmias, o processo de preservação foi possível por causa da areia quente que rodeava seus túmulos. Quando corpos são enterrados em areia quente, sem o uso de qualquer estrutura de proteção, a areia pode absorver os líquidos corporais, desidratando-os por completo. Esse processo natural de mumificação também ocorreu nos antigos túmulos egípcios. Quando um corpo era enterrado no deserto daquele país, os órgãos internos eram preservados e a pele virava uma casca escura e rígida. E foi esse fenômeno que influenciou profundamente as crenças dos antigos egípcios: a idéia de que o corpo humano poderia sobreviver por muito tempo após a morte os fez acreditar que a mesma coisa aconteceria com o espírito. Na próxima seção, vamos ver como essas primeiras múmias naturais levaram ao tão conhecido processo artificial de mumificação usado pelos egípcios.
Outra coisa de que precisariam é que seu antigo corpo fosse preservado na Terra, pois o Ka, o espírito que acompanhava o corpo físico durante a vida, estava ligado de forma inexorável ao cadáver. Caso esse cadáver fosse destruído, o espírito seria destruído junto com ele, levando a uma segunda morte, que, diferentemente da primeira, era irreversível. Se levarmos isso em consideração, dá para entender por que era tão importante mumificar o corpo físico. |