Marie Curie e a radioatividade

Ao chegar a Paris, em 1891, Maria matriculou-se na Universidade de Paris – Faculté de Sciences da Sorbonne. Eram ela e mais 22 mulheres entre quase 1.800 homens. Muitos de seus professores estavam na vanguarda da pesquisa científica da época. Um deles era Emile Duclaux,  professor de química biológica e fundador da microbiologia, outro era Gabriel Lippmann, professor de física que inventaria a fotografia em cores. Havia ainda Henri Poincaré, o mais brilhante matemático da virada do século 19 para o 20.

Logo após obter sua licenciatura e enquanto pesquisava as propriedades magnéticas do aço, num trabalho como pesquisadora-assistente do professor Lippmann, Maria conheceu Pierre Curie, um cientista francês nove anos mais velho do que ela. A afinidade intelectual e afetiva foi imediata, mas zelosos de suas preciosas independências levaram um tempo até assumirem a paixão e se casarem. Após uma lua-de-mel de passeios de bicicleta pela Bretanha, o casal foi morar na Rive Gauche. Naqueles anos em que eles iniciaram a vida conjugal, a ciência havia começado a experimentar uma transformação radical. O físico alemão Wilhelm Röntgen, ao investigar a luminescência com raios catódicos, acabou por descobrir um raio misterioso, que chamou de raio X. Após a descoberta acidental de Röntgen, o químico francês Henri Becquerel partiu em busca do raio X a partir de uma experiência que envolvia um sal duplo de urânio. Nesse processo, ele descobriu uma radiação inesperada, diferente do raio X.

Marie Curie (ela afrancesou seu nome de nascença após o casamento) acompanhou as descobertas dos dois cientistas com grande interesse. A partir de uma réplica do experimento de Becquerel, ela descobriu que a radiação emitida pelo sal duplo de urânio eletrificava o ar através do qual passava, isto é, o ar tornava-se ionizado e capaz de conduzir eletricidade. Ela chamou a esse fenômeno de “radioatividade”. A partir daí, ela começou a estudar esse fenômeno em diferentes compostos de urânio. Nesse período em que investigava e descobria mais sobre a radioatividade, Marie e Pierre tiveram uma filha: Irène. Assim, além da pesquisa científica, Marie ainda se dedicava a ser uma carinhosa mãe.

Marie e Pierre estavam empenhados em tentar descobrir qual era o elemento com maior radioatividade. Em experiências com um minério betuminoso negro marrom, chamado pechblenda, eles perceberam a existência de um elemento desconhecido. Deram a ele o nome de polônio, em homenagem á terra natal de Marie. Eles descobriram que o polônio era 400 vezes mais radioativo que o urânio. Mas a alta radioatividade da pechblenda não podia vir somente do polônio. Havia algo mais. Após mais investigações eles encontraram um novo elemento até então desconhecido. Com a ajuda do químico Eugene Demarçay, especialista em espectroscopia, eles confirmaram que haviam encontrado um elemento altamente radioativo ao qual deram o nome de rádio.

Montes de pechblenda foram então “importados” pelos Curie de uma mina na Boêmia para um galpão desativado da Escola de Física e Química Industriais em Paris para que eles pudessem produzir e estudar o rádio. Foi um trabalho insano de reduzir montanhas de refugo daquele minério betuminoso para obter pequenas porções de rádio, em precárias condições de trabalho. Nesse período um dos experimentos de Pierre mostrou que a emissão radioativa ao passar através de um campo magnético se separava em três diferentes tipos de raios (esses raios viriam a ser chamados de alfa, beta e gama). A manipulação que Pierre fez do rádio produziu queimaduras em sua própria pele. Ele não sabia, mas já estava sentindo os efeitos da contaminação radioativa, tão temida atualmente. O casal trabalhou sem nenhuma proteção durante anos, pois não se tinha ideia da ameaça radioativa para o ser humano.

Em 1903, Marie e Pierre Curie junto com Henri Becquerel foram agraciados com o Prêmio Nobel de Física. Após o Nobel, Pierre foi nomeado para a cátedra de física da Sorbonne e Maria tinha um emprego na École Normale Supérieure. Em 1905, Marie deu à luz a sua segunda filha, Eve. Mas, em abril do ano seguinte, aconteceu uma tragédia. Pierre caiu diante de uma carroça de seis toneladas puxada por cavalos e foi atingido na cabeça pela roda traseira, morrendo na hora. Marie Curie ficou destruída. Mas ela se reergueria alguns meses depois. Foi indicada para substituir o marido na cátedra de física na Sorbonne – ela foi a primeira mulher a dar aula na Sorbonne em 600 anos de história da instituição. Além disso, a descoberta do rádio e do polônio lhe rendeu um segundo Prêmio Nobel, desta vez de química.
    
Marie acabou por se envolver com o físico Paul Langevin, ex-aluno de Pierre. Paul era casado e eles se tornaram amantes. O caso foi descoberto e virou um escândalo na imprensa popular. Logo após o escândalo, ela teve um colapso, que sinalizava provavelmente os primeiros sinais dos efeitos de anos trabalhando com substâncias radioativas. Mesmo assim, durante a Primeira Guerra Mundial, ela comandou uma frota de ambulâncias, desenvolveu uma máquina portátil de raios X e, com a ajuda da filha Irène, deu aulas de radiologia para os médicos militares. Após a guerra inaugurou o Instituto do Rádio em Paris, onde se desenvolveram, entre outras, pesquisas para o uso do rádio em tratamentos contra o câncer, a chamada radioterapia. Em 1932, Marie Curie era mundialmente conhecida, mas anos lidando com radiação cobrariam seu preço. Ela estava com leucemia. Em 4 de julho de 1934, aos 66 anos de idade, ela faleceu. Um ano depois sua filha Irène, cientista de renome, e seu marido Frédéric Joliot, um dos assistentes da mãe, receberam o Prêmio Nobel de Física pela descoberta da radioatividade artificial.