A CIA e o Batalhão 316

Em 1997, o The Baltimore Sun publicou uma série de histórias a respeito do envolvimento da CIA no movimento paramilitar contra o comunismo em Honduras no começo dos anos 80. O The Sun entrevistou hondurenhos expatriados que faziam parte de uma tropa de elite chamada Batalhão 316, treinado por agentes da CIA para combater guerrilhas de esquerda. Os expatriados entrevistados nos artigos eram diretamente envolvidos no sequestro, tortura física e mental e assassinatos de centenas de hondurenhos suspeitos - às vezes incorretamente - de serem membros ou defensores do movimento esquerdista.

De acordo com as informações relatadas no The Sun, a CIA treinou o Batalhão 316 nas formas consagradas especificadas no manual KUBARK da CIA: violência física é inútil, a psicologia é tudo. A ameaça de morte é "mais que inútil", diz o manual, pois o prisioneiro sente "que tende a ser condenado após a submissão tanto quanto antes" [fonte: The Washington Post (em inglês)].

American advisor trains Hondurans in 1983.
John Hoagland/Liaison/Getty Images
Soldado americano não identificado treina soldados hondurenhos em junho de 1983

Enquanto as táticas de isolamento e maus tratos com a marca da CIA eram usadas pelo Batalhão 316, a brutalidade física também era usada. As vítimas eram golpeados até a morte e depois desmembradas com facões. Eram usadas máscaras de borracha para sufocar os prisioneiros e fazê-los falar. Outros eram conectados a baterias de carros, uma forma afrontosa de eletrocução [fonte: The Baltimore Sun (em inglês)].

Entretanto, enquanto os hondurenhos aprendiam as táticas de interrogatório com a CIA, oficiais da agência traziam um novo manual - que não incluía referências a correntes elétricas. Era o Manual de Aproveitamento de Recursos Humanos - 1983.

Se o manual KUBARK é o auge de anos de experiências no campo da tortura, o manual de 1983 é resultado de 20 anos de ajustes do conteúdo do KUBARK. Ambos são baseados nas mesmas linhas: luz artificial; isolamento; estranheza e desorientação por meio do confinamento solitário; e perversão sensorial são as etapas para induzir um detento à informação voluntária. Como o manual KUBARK, a versão de 1983 detalha métodos de coerção caso o detento se revele resistente aos métodos iniciais.

As táticas de coerção descritas no manual de 1983 parecem ser versões mais sofisticadas das encontradas no manual KUBARK. Os agentes podem criar um sentimento de isolamento e de desamparo assegurando-se de que as celas no local de interrogatório estejam equipadas com pesadas portas de metal. "A batida de uma porta pesada dá ao sujeito a impressão de que ele está afastado do resto do mundo", diz o manual de 1983 [fonte: The Baltimore Sun (em inglês)].

O tema dor, também foi detalhado. O manual de 1983 é muito específico sobre porque a imposição de dor é contraproducente: "A ameaça de dor pode despertar medos mais danosos do que a imediata sensação de dor. Na realidade, a maioria das pessoas subestima sua capacidade de suportar a dor" [fonte: The Baltimore Sun (em inglês)]. O manual prossegue sugerindo que manter uma vítima em posições estressantes ou outras situações desconfortáveis por longos períodos, cria dor interna. Considerando que a dor é mais interna do que externa (como se fosse causada intencionalmente), é provável que a vítima venha a enxergar o inquisidor como alguém que pode ajudá-la. Essa vítima pode até mesmo formar um tipo de confiança no inquisidor - como na Síndrome de Estocolmo.

A disseminação das informações encontradas nesses manuais pelo The Baltimore Sun levanta questões como discutir se as técnicas de interrogatório da CIA são legais. Leia sobre isso na próxima página.