Venha para o inferno ou para águas paradisíacas

O pior dano causado pelas enchentes é a perda de vidas e lares por motivo do poder do curso simples das águas. Cerca de 61 cm de água têm a força de propulsão para mover carros e 15 cm podem derrubar uma pessoa. É surpreendente que esse volume de águas, mesmo sendo grande, pode golpear. É possível nadar pacificamente no oceano sem ser interrompido, considerando-se o grande volume de água. Na maioria dos casos, um rio em curso não é o suficiente para deter alguém. Então, porque as águas provenientes de enchentes se comportam de maneira diferente?


Foto cedida por Agência NOAA
Uma seqüência de carros empilhados em 1972, devido a uma inundação repentina e violenta em Rapid City, no estado de Dakota do Sul (EUA)

As águas provenientes de enchentes são mais perigosas, porque elas exercem mais pressão do que um rio ou mar calmo. Isso ocorre devido às diferenças massivas de volume de água existentes durante muitas enchentes. Em um alagamento, um grande volume de água poderá se aglomerar em uma área, enquanto em outra, há escassez. As águas são muito pesadas, dessa forma, elas se movem muito rapidamente para encontrar o seu nível. Quanto maior a diferença entre os volumes de água em uma área, maior será a força de seu movimento. Porém, em um determinado ponto, as águas não parecem tão profundas e não apresentam perigo aparente. Como as pessoas não percebem o perigo, quando tentam se salvar pode ser tarde demais. Quase metade das mortes devido a enchentes resultam da imprudência de pessoas ao tentar dirigir seus carros em águas muito revoltas. Existe muito mais volume de água no oceano do que em uma enchente. Porém, elas não nos atingem, pois estão igualmente distribuídas. As águas em um mar calmo não estão lutando para encontrar o seu próprio nível.


Foto cedida Agência NOAA
Uma casa que foi levada pela correnteza abaixo em 1997, na cidade de Arboga, na Califórnia

As enchentes mais perigosas são aquelas que ocorrem de modo mais repentino, causadas por rápido acúmulo de água. As tempestades repentinas atingem uma determinada área assim que o volume de água se acumula, seja devido ao excesso de chuva ou outras causas. Então, na maioria dos casos, as pessoas não estão conscientes de sua aproximação. Desde o momento em que há um grande acúmulo em uma determinada área, as águas com potencial para inundação tendem a se mover com grande força, arrebatando pessoas, carros e até mesmo casas em seu caminho. Essas águas podem ser especialmente devastadoras quando tempestades com trovoadas desaguam um grande volume em uma montanha a uma velocidade muita rápida, varrendo tudo em sua direção.

Uma das piores e mais repentinas inundações na história dos EUA, ocorreu em 1976, na cidade de Big Thompson Canyon, no Colorado. Em menos de cinco horas, tempestades com trovões nos arredores despejaram mais chuvas do que a região normalmente experimenta ao longo do ano. O Rio Thompson, normalmente considerado, um canal d'água tranqüilo, transformou-se abruptamente em uma torrente incontrolável, despejando 882.000 litros (ou 233,000 galões) em uma garganta d'água a cada segundo. Milhões de acampamentos agruparam-se na cabeceira do rio para celebrar o centenário do estado do Colorado. A inundação aconteceu de modo tão repentino que não houve tempo para emitir um sinal de aviso. Quando ela atingiu o vale, centenas de pessoas foram feridas e 139, mortas.


Foto dortesia Agência NOAA
Um trailer, um carro e um poste de telefone ficaram empilhados durante a enchente de 1977, no estado da Geórgia

Um tipo de dano menos catástrofico é a umidade. A maioria dos prédios tem instrumentos de proteção contra a chuva, mas não foi construído para serem pressionados com muita água. Se o nível for alto o suficiente, muita água invade as casas, ensopando tudo em seu caminho. Na maioria dos casos, o elemento que causa maior dano não é a própria água, mas os sedimentos que ela carrega consigo. Conforme as águas fluem em um determinado local, elas coletam muito lixo em seu caminho. Quando a tempestade acaba, o nível de precipitações diminui e, no final, tudo seca. Porém, a chuva e o lixo oriundo das enchentes permanecem.

Em 1966, uma grande tempestade atingiu o Rio Arno, que corta a cidade de Florença, na Itália. A pequena cidade, uma das capitais culturais do mundo, foi varrida pelas águas, lama e lodo em geral. Além das vidas perdidas e dos danos aos edifícios houve uma grande perda com relação ao patrimônio artístico da cidade. A lama e o lodo cobriram os porões e as salas da cidade. Depois do desastre, por muitos anos de trabalho, os cientistas e os historiadores de arte trabalharam para  restaurar as peças e deixá-las em boas condições.


Foto cedida Agência NOAA
Os trabalhadores de resgate lutaram correnteza acima contra as águas furiosas em 1975, contra a rápida tempestade que atingiu a cidade de Rockville, no estado de Maryland

Outro tipo de dano é a disseminação de doenças. Conforme as águas fluem em uma área, elas carregam consigo todos os tipos de produtos químicos e de despejo. Isso leva a condições extremamente anti-higiênicas. De modo essencial, tudo e todos durante uma tempestade flutuam como se estivessem dentro de um grande pote de sopa. Enquanto isso, as doenças que normalmente não são criadas por essas condições são de contágio mais fácil. A maioria das doenças se espalha mais rapidamente por meio da água do que pelo ar. Se alguém estiver em uma área que sofreu enchente, é muito importante que a pessoa beba apenas água mineral ou fervida e observe outras medidas sanitárias. Para saber mais a respeito do que fazer em situações de enchente, veja este guia recomendado pelo Centro de Controle de Doenças. (em inglês)

Nunca será possível conter uma enchente. Trata-se de um elemento inevitável dentro do complexo sistema climático da atmosfera. Todavia, é possível trabalhar para minimizar os danos resultantes das enchentes, construindo barragens, diques e sistemas de canal sofisticados. Porém, a melhor forma de se evitar os danos é evitar áreas com potencial para enchentes. Como nos casos de muitos fenômenos naturais, a reação mais sensata a uma situação com potencial para enchente é a de sair de seu curso.