Corpos planetários

Em "Star Wars Episódio I: A Ameaça Fantasma", Qui-Gon Jinn, Obi-Wan Kenobi e Jar Jar Binks estão na cidade subaquática de Gungan no planeta Naboo. Eles precisam chegar até a rainha Amidala no outro lado do planeta. Então, o líder do povo Gungan lhes diz que o caminho mais rápido é através do centro do planeta e lhes dá um submarino. No caminho, são perseguidos por vários monstros marinhos, dos quais eles escapam antes de chegar à superfície. Embora essa cena pareça inofensiva, ela desafia tudo o que sabemos a respeito dos planetas. Planetas não têm superfícies rochosas e núcleos aquáticos.

Qui-Gon, Obi-Wan e Jar Jar viajam através do centro de Naboo
Imagem cedida por Lucasfilm. LTD. e MR, 1999. Todos os direitos reservados.
Viagem pelo centro de Naboo

No nosso sistema solar temos pequenos planetas rochosos (Mercúrio, Vênus, Terra, Marte) e gigantes gasosos (Júpiter, Saturno, Urano, Netuno). Os planetas se formaram quando materiais provenientes do antigo disco solar (planetesimais) colidiram e se agruparam para formar os planetas. Estes materiais no interior do sistema solar eram feitos principalmente de rochas, poeira e metal que podiam existir em um ambiente aquecido. Os planetesimais no exterior do sistema solar eram feitos em sua maioria de gás, gelo e poeira que podiam existir em ambiente gelado. À medida que os planetas se formaram, a gravidade manteve os planetesimais agregados e os fez girar. Naboo é um planeta como a Terra, então vamos examinar a formação da Terra.

Na Terra primitiva, as colisões de planetesimais produziram calor e derreteram o material, que não era uniforme. Nesse meio derretido, materiais de diferentes densidades se acomodaram. O ferro e o níquel dentro da Terra derretida eram os mais densos e afundaram em direção ao centro para formar o núcleo. Materiais menos densos depositaram-se em cima, formando camadas (núcleo externo, manto, crosta). Os geólogos chamam esse processo de diferenciação. Observação: nos gigantes gasosos da parte externa do sistema solar, os núcleos podem ser compostos de poeira e gelo com camadas de gases líquidos em volta deles.

Camadas terrestres
Imagem cedida pela U.S. Geological Survey
Estrutura da Terra

A água é menos densa que níquel, ferro e rochas. Ela flutuaria nessas substâncias, e por isso você não poderia encontrar água no centro da Terra. Da mesma forma, Naboo não teria um núcleo de água.

No livro, "The Science of Star Wars" ( A ciência de Star Wars), Jeanne Cavelos afirma que Naboo seria supostamente feito de agregados irregulares de rochas com cavernas cheias de água entre eles. Entretanto, a gravidade atrairia esses pedaços e eles se aqueceriam. Qualquer caverna iria desmoronar, a água desapareceria e Naboo assumiria uma forma esférica com diferenciação, exatamente como a Terra.

Em "O Núcleo - Missão ao Centro da Terra", os cientistas descobriram que o centro da Terra parou de girar, causando um distúrbio no campo magnético da Terra e deixando-a vulnerável à radiação mortal de microondas (alerta de ciência ruim: o sol não emite energia suficiente na faixa de microondas ao ponto de se tornar um perigo para o campo magnético da Terra que, aliás, não rechaça as microondas). Para resolver a situação, os cientistas viajam pelo manto e pelas camadas derretidas do núcleo exterior e tentam reiniciar a rotação do núcleo com bombas nucleares. Embora a representação da estrutura da Terra seja melhor que em outros filmes, "O Núcleo - Missão ao Centro da Terra" tem muitas outras falhas científicas. Veja análises detalhadas em Bad Astronomy (em inglês) e Insultingly Stupid Movie Physics (em inglês).

Marte nos filmes
Marte tem sido um assunto fascinante há muito tempo e Hollywood tem tentado corresponder a esse interesse. Nos anos 50, "The Angry Red Planet" mostrava a vida no planeta vermelho com cenas onde a superfície do planeta era completamente vermelha e estranhos "ratos-aranha" atacavam a tripulação. O filme "Robson Crusoé em Marte" apresentava Marte como um planeta desértico com uma atmosfera fina, onde o herói sobreviva com um companheiro alienígena de características humanas. Podemos perdoar esses filmes, já que eles usaram as descrições do famoso astrônomo Percival Lowell sobre a superfície do planeta, de muito antes que as sondas enviadas até Marte nos mostrassem como ele é.

Marte
Imagem cedida pela NASA
Marte

Marte é um planeta frio e deserto onde se acredita que havia água; essa água talvez ainda exista em estado sólido nos pólos e nas camadas de solo congelado, o permafrost. Para mais detalhes, veja Como funciona Marte. Dois filmes recentes, "O Planeta Vermelho" e "Missão: Marte", têm uma representação mais realista de Marte, baseada nas informações coletadas pelas missões à Marte desde 1976. Entretanto, em "O Planeta Vermelho", os astronautas caem em Marte e precisam andar uma grande distância através da superfície do planeta até um módulo. No processo, seu trajes ficam sem oxigênio; um membro da equipe comete suicídio pulando de um precipício para não morrer sufocado. Em uma cena dramática, o restante dos astronautas estão sufocando dentro de seus trajes quando um deles desesperadamente abre a viseira de seu capacete e respira. Ele descobre milagrosamente que há oxigênio no ar de Marte. Eles não poderiam saber disso antes de cair lá?



Foto cedida pela NASA
Simulação do espectro de absorção de raios infravermelhos em um planeta como a Terra (acima) e interpretação dos dados para sinais de vida (abaixo)

Marte possui uma fina atmosfera composta basicamente de dióxido de carbono. Até o momento, não há oxigênio lá para suportar a vida humana. Além disso, quando sua atmosfera é aquecida ou iluminada, elementos e compostos absorvem e irradiam energia em várias formas de radiação eletromagnética, tais como infravermelho. Veja Como funciona a luz para mais informações. O espectro infravermelho é usado freqüentemente para determinar que tipos de moléculas existem em um planeta e se são abundantes. Telescópios sediados na Terra e equipados com espectrômetros de infravermelho podem detectar elementos na atmosfera de outros planetas e mesmo de planetas em torno de outras estrelas. Com estas técnicas, os astronautas de "O Planeta Vermelho" certamente saberiam que havia oxigênio em Marte muito tempo antes de chegarem lá.

Há pesquisas e propostas para que seja possível, no futuro, criar condições de vida em Marte para torná-lo mais semelhante à Terra. Veja Como funciona Marte. Esta tem sido a base para os livros de ficção científica de Kim Stanley Robinson's ("Marte Vermelho", "Marte Verde", "Marte Azul", "Os Marcianos").

Diga-me, asteróide... como você realmente é?
No filme "Armageddon", os astrônomos avistam um asteróide que atingirá a Terra em questão de dias. O asteróide tem o tamanho do Texas e o impacto causará a aniquilação total da vida na Terra (ou pelo menos das pessoas). Uma equipe de astronautas e exploradores de petróleo precisam pousar no asteróide, perfurar um buraco de 240 metros em seu solo, implantar uma bomba nuclear, decolar do asteróide e detonar a bomba. A explosão faria rachar o asteróide, fazendo os pedaços passarem por um triz em cada lado da Terra e salvando a humanidade. Esta história eletrizante de aventura e ação tem pouco embasamento científico.

Quando pousam no asteróide, os astronautas contam com propulsores especiais em seus trajes para auxiliá-los a andar normalmente no ambiente de baixa gravidade. Até aí tudo bem. Mas dentro da espaçonave pousada no asteróide, os membros da equipe caminham normalmente pela nave sem usar o traje. A gravidade funciona da mesma maneira, quer estejam dentro ou fora da espaçonave.

Asteróide Eros
Imagem cedida pela NASA
O asteróide Eros

Em Armageddon, o asteróide tem o tamanho do Texas; a maioria dos asteróides tem apenas alguns quilômetros de largura, os astrônomos iriam avistar um asteróide assim tão grande bem antes que estivesse a poucos dias da Terra. No filme, o asteróide possui uma superfície áspera, com penhascos pontiagudos e enormes canyons. Fotos reais do asteróide Eros, tiradas da espaçonave NEAR, mostram que a superfície é relativamente lisa, embora cheia de crateras.

Um filme parecido, "Impacto Profundo", foi lançado ao mesmo tempo que "Armageddon". A história era similar, mas envolvia um cometa ao invés de um asteróide. "Impacto Profundo" não era um filme de aventura. Tratava mais da questão humana, sobre o que aconteceria na possibilidade de tal impacto. Sabemos que tais impactos aconteceram durante o curso da história da Terra e do sistema solar e até presenciamos o impacto do cometa Shoemaker-Levy 9 contra Júpiter. Veja Como funcionam os cometas.

A seguir examinaremos como a ficção científica tem cometido enganos com antimatéria, gravidade e buracos negros.