Os extintos, os ameaçados e os que retornam

Autor: 
Sylvia Estrella

No Brasil, a extinção de espécies está muito ligada à sobrepesca e à caça. A falta de educação ambiental também cobra seu preço, assim como a poluição de rios e as queimadas e desmatamentos. Para agravar a situação, a pobreza faz com que, muitas vezes, o único recurso para alimentação da população sejam os animais capturados na natureza. Conheça abaixo, algumas expécies ameaçadas de extinção.

Peixe-boi

Existem duas espécies de peixes-bois no Brasil: o peixe-boi marinho (Trichechus manatus) e o peixe-boi da Amazônia (Trichechus inunguis). Os peixes-bois e os elefantes tiveram, há milhões de anos, um ancestral em comum. O peixe-boi marinho pode ser encontrado no Nordeste e Norte do país. Já o peixe-boi amazônico só existe na bacia do rio Amazonas, no Brasil, e no rio Orinoco, no Peru.

O peixe-boi é o mamífero aquático mais ameaçado de extinção no país. No passado, podiam ser encontrados em toda a costa, do Espírito Santo ao Amapá. Por causa da caça indiscriminada desde a época da colonização e o avanço da ocupação do litoral, este animal se encontra seriamente ameaçado de extinção. Hoje, eles aparecem apenas no Amapá, Pará, Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco e Alagoas, tendo desaparecido no Espírito Santo, Bahia e Sergipe.

Em setembro de 2007, pesquisadores de Manaus organizaram a primeira reintrodução de peixe-boi amazônico em água doce. A espécie, considerada ameaçada de extinção pelo Instituto Brasileiro de Meio Ambiente (Ibama), é alvo de caça predatória nos rios da Amazônia.

Apesar de ser ilegal, a caça do peixe-boi amazônico (Trichechus inunguis) ainda é bastante comum entre populações ribeirinhas, que costumam capturar os filhotes para atrair as mães para o abate. Depois simplesmente descartam as crias, que podem acabar morrendo sem amamentação. Elas mamam até os 2 anos. Além disso, a captura do peixe-boi é considerada simples pela população local, já que é um animal manso que quase não reage à aproximação humana.

Os animais reintroduzidos na natureza levaram colares com transmissores de rádio. Os resultados das pesquisas vão subsidiar a elaboração de um plano de manejo para a conservação da espécie na região amazônica.

Lobo-guará

O lobo-guará, guará ou lobo vermelho (Chrysocyon brachyurus) é o maior mamífero canídeo nativo da América do Sul. O guará faz parte da lista de animais em extinção publicada pelo Instituto Brasileiro de Meio ambiente (Ibama). Restam apenas alguns milhares de espécimes nas planícies de Mato Grosso, na região do Parque das Emas, no Brasil.

Antigamente, havia tanto lobo-guará no vale do rio Paraíba do Sul, entre São Paulo e Rio de Janeiro, que o fato inspirou o nome da cidade paulista de Guaratinguetá. Os guarás também habitavam os cerrados da região Centro-oeste, parte da Caatinga do Nordeste e na Zona da Mata, no Nordeste brasileiro.

Estudos da IUCN apontam que em 1976 um casal de lobos-guará vivia em um território de 300Km² . Atualmente um casal é obrigado a sobreviver em uma área de 20 a 30Km². Como conseqüência desta redução, houve a modificação dos hábitos alimentares, tornando-o mais próximo do homem e acelerando o extermínio deste canídeo.

Onça-pintada

Maior felino das Américas, a onça-pintada (Panthera onca) é parente próxima dos leões, tigres e leopardos. Seu habitat natural são as matas densas da Amazônia, as florestas tropicais e o Pantanal.

A onça sofre com a caça ilegal e é uma espécie ameaçada de extinção na lista do Ibama. A caça pela pele, a destruição de seus habitats, o isolamento populacional e a caça e envenenamento por parte de pecuaristas têm contribuído para o declínio do número de onças em toda a América. A onça-pintada extinguiu-se nos Estados Unidos em 1986, tendo sido avistada pela última vez no Arizona. Originalmente, as onças-pintadas se espalhavam do sul dos Estados Unidos ao norte da Argentina, sendo muito presentes no Brasil.

Jaguatirica


Jaguatirica, ocelote, ou gato-do-mato é um felino cujo nome científico é Leopardus pardalis ou Felis pardalis, originariamente encontrado na Mata Atlântica e outras matas brasileiras. Distribuída por toda a América Latina, é encontrada também ao sul dos Estados Unidos.

O estado de conservação do gato do mato é considerado vulnerável pala IUCN e em perigo pela USDI (1980). Está desaparecendo pela ação dos caçadores que querem sua linda pele. O mercado negro é alimentado pelo costume de muitos países de transformá-lo em animal exótico e de estimação.

Baleia franca

A baleia franca (Balaena mysticetus) é a segunda espécie de baleia mais ameaçada de extinção no planeta. As espécies E. glacialis e E. japonica (baleia-franca-do-atlântico-norte e do-pacífico, respectivamente) estão na Lista Vermelha da UICN, na categoria Em perigo (EN). A do tipo austral, que ocorre no Brasil, não consta como ameaçada na lista da IUCN, mas pesquisadores apontam isso como uma falha. Foi criada uma Unidade de Conservação no litoral de Santa Catarina, em Imbituba, onde também fica a sede do Projeto Baleia Franca, que visa a conservação desta espécie por meio de atividades de educação ambiental e observação das baleias quando elas se aproximam do litoral catarinense, nos meses de inverno.

Baleia Jubarte


Imagem cedida pelo Instituto Baleia Jubarte

A baleia jubarte (Megaptera novaeangliae), também chamada baleia corcunda ou preta, é conhecida por seu temperamento dócil, pelas acrobacias que realiza (saltos, exposição de cabeça e nadadeiras, etc.) e por um desenvolvido sistema de vocalização.

No Atlântico Sul Ocidental, a principal área de reprodução desta espécie é o Banco dos Abrolhos, no litoral sul da Bahia, no Brasil. Nos meses de julho a novembro, estas baleias procuram as águas quentes, tranqüilas e pouco profundas de Abrolhos para acasalar e dar à luz a um único filhote, que nasce após uma gestação de aproximadamente 11 meses. Eles são monitorados pelo Instituto Baleia Jubarte.

Depois de anos na lista das ameaçadas de extinção. A baleia saiu da lista em 2008, com cerca de 50 mil espécies vivendo nos oceanos.

Jacaré

O Jacaré-de-Papo Amarelo (Caiman latirostris) figura na lista do Ibama como ameaçado e na da IUCN como criticamente ameaçado. É apenas uma das espécies de jacaré que vive no Brasil. Sua presença representa uma contribuição eficaz para o aumento da população de peixes nos corpos d'água, já que suas fezes servem de adubo para o desenvolvimento de fitoplancton, que é utilizado como alimento por diversas espécies de peixes.
Há também o jacaré-do-pantanal (Caiman crocodilus yacare), uma espécie que vive na parte norte da Argentina até o sul do Amazonas, e como o próprio nome diz, vive principalmente no Pantanal. Não se encontra ameaçado de extinção, sendo criado inclusive em fazendas destinadas a este fim. Suas fezes também alimentam os peixes.

Existe ainda o jacaré-açu (Melanosuchus niger), espécie exclusiva da América do Sul. Também conhecido como jacaré negro, é um predador de topo de cadeia alimentar que se alimenta de tartarugas, peixes, capivaras e veados. É uma espécie que esteve à beira da extinção devido ao valor comercial do seu couro de cor negra e da sua carne. Atualmente encontra-se protegido e sua população encontra-se estável no Brasil. É a maior espécie de jacaré, com tamanho médio de 5,5 metros. Já foram encontrados exemplares com mais de 7 metros de comprimento.

Mico-leão-dourado


O mico-leão-dourado (Leontopithecus rosalia) é conhecido como uma das espécies bandeira da conservação na Mata Atlântica no Brasil. Espécie bandeira é aquela que pelo seu carisma é usada como símbolo na luta da preservação ambiental. Este primata de pequeno porte mede aproximadamente de 25 a 35cm, tem cauda de 30 a 40cm e pesa em torno de 600g. A pelagem tem a cor de fogo, variando a tonalidade ao longo do corpo. Na cabeça ostenta uma espécie de juba, a qual deve lhe ter valido a denominação.

Atualmente vive apenas em densas florestas no Estado do Rio de Janeiro. As grandes queimadas e outras formas de desmatamento estão reduzindo o tamanho das florestas. Existem apenas cerca de 600 micos na Reserva Biológica de Poço das Antas, mas serão necessários mais de 2000 micos para salvar a espécie da ameaça de extinção.

Animais de criação em extinção

Não só os animais selvagens sofrem com a extinção. Segundo um relatório da FAO, organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), uma raça de animal de criação desaparece por mês no mundo. Os países em desenvolvimento são o principal palco desse problema. Pequenos produtores agrícolas abandonaram a criação de animais tradicionais em favor de raças de rendimento mais elevado importadas dos Estados Unidos e da Europa. O que pode ser um grande erro.

Em Uganda, por exemplo, a raça de bovinos Ankol, famosa por seus grandes chifres, poderá desaparecer em 25 anos, já que ela vem sendo substituída pelas Holstein Frisonne, que produz mais leite. Acontece que essa mudança pode não ser benéfico. No caso de Uganda, numa seca recente que assolou esse país, só os produtores da raça Ankol puderam salvar seu rebanho, já que a espécie foi chegar a fontes d'água mais longínquas.