Influências e querelas

Uma das críticas mais comuns a obra de Charles Darwin é a suposta falta de originalidade no que diz respeito a emprego de idéias advindas de outros pensadores. Estes comentários algumas vezes visam desmerecer, ou no mínimo questionar sua genialidade.

A expressão “a sobrevivência do mais apto”, elegida por Darwin para explicar o mecanismo da seleção natural, foi cunhada pelo engenheiro e filósofo inglês Herbert Spencer (1820 – 1903). Considerado um lamarckista, Spencer foi um crítico da obra de Darwin, pois acreditava que a lei do uso e desuso aliada a seleção natural simplificaria em muito o entendimento de alguns fenômenos da evolução. A Spencer também cabe o crédito popularização da palavra “evolução”.

Capivara
Imagem cedida pelo site Darwin Online
A capivara foi um dos animais estudados por Darwin


A seleção natural das espécies foi concebida pelo sacerdote anglicano Thomas Robert Malthus (1766 – 1834) em seu Essay on Population (1798). Sua análise pessimista e fatalista onde a população humana cresce em progressão geométrica e a produção de alimentos em progressão aritmética levaria a escassez de alimentos, gerou muita repercussão. O malthusianismo, como ficaram conhecidas suas idéias, encontrava nas epidemias e guerras o mecanismo natural de controle da população, assim como via nas assistências caritativas em hospitais e asilos um retardo a ação da natureza.

Sobre esta perspectiva Darwin parece ter se apoderado de idéias de outros pensadores, mas não é bem assim. A influência de Malthus e Spencer é clara e declarada, mas a genialidade de sua obra não fica em nada comprometida por empregar essas idéias, pois mesmo tendo bebido dessas fontes, a maturidade e a longa e sistemática concepção de sua teoria se deu por mérito próprio.

Porém, a crítica mais ferrenha é aludida à colocação de Wallace a segundo plano no contexto do evolucionismo. Alfred Russel Wallace (1823 – 1913) foi um eminente naturalista inglês, que compartilhava com Darwin as idéias evolucionistas, e mais ainda, teve tamanha influência sobre a redação de a “Origem das espécies” que em reedições, Darwin publicou na íntegra o trabalho de Wallace. Trabalhando no arquipélago de Mali Wallace relevou a importância da geografia no processo evolutivo, algo já referido por Darwin na sua viagem a bordo do Beagle, rendendo-se posteriormente ao mecanismo da seleção natural como fator primário do evolucionismo. As correspondências e leituras das obras de ambos evolucionistas serviram para o amadurecimento simultâneo de suas teorias, mas o fato é que a obra de Darwin teve maior abrangência pela forma clara e acessível e pela coerência e síntese na qual foi cunhada.

Podemos pensar em um marco pós-Darwin e os caminhos que suas idéias tomaram. Primeiramente vamos nos direcionar aos evolucionistas, cientistas e pensadores, que deram continuidade e profundidade ao entendimento dos mecanismos de transmissão das características hereditárias e, em segundo lugar, a outros influentes pensadores e seu impacto direto no contexto social.
O final do século 19 e início do século 20 foi marcado pelo decréscimo da influência lamarckista em prol da darwinista. A teoria do uso e desuso, mesmo que ainda defendida por alguns com Spencer, foi pouco a pouco substituída por novas concepções. Um dos mais ferrenhos opositores foi o biólogo alemão August Friedrich Leopold Weismann (1834 -1914) com sua teoria dos plasmas germinativos e somáticos, na qual, segundo ele, somente através do plasma germinativo as características hereditárias seriam transmitidas, enquanto o plasma somático em nada contribuía com a transmissão, desse modo as mudanças originárias do esforço do ser, pressuposto da teoria de Lamarck, atuariam sobre o plasma somático e conseqüentemente não teriam valor hereditário.

Não só o lamarckismo entrou em declínio, no início do século 20. As teorias evolucionistas e a tradição naturalista foram suplantadas pelo experimentalismo com a redescoberta dos estudos de Mendel. O monge Gregor Johann Mendel (1822 - 1884) formulou as leis da hereditariedade e a influência de seu trabalho empírico influenciou os estudiosos do novo século. Porém, alguns cientistas como o ucraniano Feodosy Grigorievich Dobzhansky (1900 – 1975), ou Theodosius Dobzhansky como era empregado, naturalista de formação, agregaram a evolução aos estudos da nova ciência originada dos trabalhos experimentais de hereditariedade.
Atualmente, a teoria evolucionista, mas especificamente a de Darwin, recebe a denominação de Teoria Sintética da Evolução, conciliando a genética e o evolucionismo.

Mas além deste panorama científico, as teorias darwinistas tiveram influência direta sobre pensadores humanistas, por exemplo, o pai da psicanálise, Sigmund Freud (1856 - 1939), reconhece que a obra de Darwin foi uma das inspirações que o levou a estudar medicina.

Nem só no âmbito dos estudiosos elas permeiaram. Idéias errôneas como a de que “o homem veio do macaco” é uma delas, vinculadas ao senso comum. Lembremos que Darwin afirma que a evolução ao longo do tempo cria a ancestralidade, desse modo espécies existentes, ou mesmo extintas, têm sua origem em outra espécie que diverge evolutivamente. Então em algum momento uma espécie comum entre os primatas deu origem a ramificações nas quais atualmente encontramos os gorilas, chipanzés e o homem. Se mesmo hoje em dia, com o mapeamento genético, sabendo da nossa semelhança evolutiva comum, a idéia de sermos parentes próximos desses primatas possa causar incômodo, imagine no século 19. O homem foi colocado na natureza como mais uma espécie, peculiar é bem verdade, mas não deixando de ser encarado com um animal. Biologicamente isto é um fato incontestável, mas socialmente é avassalador.

Mas, mais perniciosa que esta idéia foi o fato das teorias de Malthus, inspiradoras para a aplicação a natureza no entendimento de Darwin, terem ganho uma nova roupagem e virem a ser denominadas por darwinismo social. Darwinismo evolutivo e darwinismo social se confundiram ao longo da história, mas a teoria contida em “Origem das espécies” não tinha o caráter social e político, mas biológico. Porém, argumentações científicas foram empregadas para ideais racistas e imperialistas. O melhor exemplo se encontra no trabalho de Francis Galton (1822 – 1911), primo de Charles Darwin, que se dedicou a promover a eugenia. De uma formação eclética, sendo reconhecido como matemático, Galton viu na teoria evolucionista a oportunidade de, através mecanismos como cruzamentos genéticos, melhorar da raça humana. Ele foi o idealizador da biometria, coletando medidas físicas e psíquicas de pessoas, a fim de selecionar exemplares que pudessem aprimorar a raça. Diante de uma Inglaterra fragmentada pela revolução industrial, onde de um lado havia a “harmoniosa” burguesia e de outro a massa disforme dos operários, Galton aterrorizava-se com a perda da supremacia da raça. Assim dedicou toda sua vida a promover suas idéias “evolucionistas”.

Atualmente as teorias evolucionistas são amplamente aceitas e graças aos avanços dos estudos paleontológicos, ecológicos e principalmente genéticos podemos entender os mecanismos que Darwin em sua época não podia. A teoria da evolução de Darwin atualmente é explicada pela Teoria Sintética da Evolução, onde as variações hereditárias (mutações e recombinações genéticas) aliadas ao processo de seleção natural nos dão subsídios para compreender os fenômenos evolutivos e a origem das espécies.

Mas como toda linha de pensamento e estudo, o darwinismo, seja ele o original, proposto por seu idealizador, ou a teoria sintética da evolução, referida como uma teoria neodarwinista, encontra opositores dentro e fora do meio científico. Os criacionistas não admitem que as proposições bíblicas estejam erradas ou mesmo que o “acaso” reja as mudanças. As linhas mais conservadoras, minoritárias é verdade, tem uma leitura literal da bíblia, refutando qualquer prova científica da origem das espécies e principalmente do homem que teria sido criado “a imagem e semelhança de Deus”. Embora essa abordagem não mereça a discussão no âmbito científico, ela é bastante influente no campo ideológico. Há os criacionistas menos radicais que se curvam diante dos fatos comprovados como a datação da Terra, a presença de elos evolutivos nas espécies, porém a presença divina se manifesta na idéia que o “acaso” não rege a evolução e sim um “design inteligente”, onde as diversas formas teriam um propósito.

E nem tudo é um mar de rosas mesmo dentro do grupo dos evolucionistas não criacionistas. Outra discussão, bastante ideológica, refere-se à questão da unanimidade da teoria neodarwinista. Muitos cientistas e filósofos apontam que estas teorias sufocam qualquer outra forma de possível entendimento e compreensão dos fenômenos da evolução. Para eles as lacunas e questões que possam existir são simplesmente ignoradas e qualquer pensador que se oponha a ela é ignorado ou alvo de chacota, sendo assim não uma teoria e sim um dogma.

Não obstante a estas questões, o fato é o legado de Charles Darwin e posteriormente os avanços da genética recolocaram o homem no Universo.