Charles Darwin: de Galápagos à seleção natural

A viagem de Darwin a bordo do HSM Beagle tinha a previsão inicial de dois anos. Mas, ela acabou durando cinco. Um dos pontos altos para a futura teoria da seleção natural que Darwin desenvolveria foi a passagem pelo arquipélago de Galápagos, na costa do Equador. Em um mês que permaneceu nas ilhas, ele viu uma fauna e flora incomuns. Tartarugas gigantes, iguanas e uma diversidade de tentilhões estavam entre as espécies observadas mais atentamente por Darwin.

Os tentilhões apareciam em diferentes subespécies em distintas ilhas. Em cada uma delas era possível encontrar esses pássaros com cores variadas e diferentes bicos. Os bicos variavam em forma e tamanho em função da maneira como cada subespécie se alimentava. Nas ilhas em que a alimentação deles se baseava em nozes, os pássaros tinham um bico apropriado para isso, em outras em que eles sugavam o néctar das flores o bico era adequado a esse objetivo. Darwin registrou em seu diário: “Pode-se realmente imaginar que, devido a uma escassez original de pássaros nesse arquipélago, uma espécie tinha sido tomada e modificada para diferentes fins”.

Após cinco anos de viagem o Beagle aportou de volta na Inglaterra. Darwin tinha embarcado nele como um inexperiente botânico e, ao retornar, era um cientista em sua plenitude. As coleções de espécies que colheu durante toda a viagem foram alojadas em vários museus em Londres e Cambridge. Ele virou uma celebridade no meio científico, sendo nomeado membro do conselho diretor da Sociedade de Geologia e integrante da Sociedade Real. Mas ele não mudou seu modo de ser. Naquele momento o que mais o afligia é que suas observações eram totalmente discrepantes do criacionismo ortodoxo. Segundo a teoria criacionista, os tentilhões observados por Darwin em Galápagos deveriam ser idênticos já que partilhavam o mesmo meio ambiente.

Na viagem, Darwin tinha observado também avestruzes gigantes nos pampas argentinos e uma variação menor logo ao sul, na inóspita Patagônia. Tanto um quanto o outro eram muito parecidos com os avestruzes africanos. Para os criacionistas, os três tipos haviam sido criados como espécies independentes. Mas Darwin já pensava que essas três diferentes variações eram o resultado de uma mesma espécie original que se desenvolveu e se adaptou às diferentes circunstâncias nos seus respectivos isolamentos geográficos.

Assim, Darwin concluiu que a natureza não era imutável. À medida que processava mentalmente suas deduções, outros fatos surgiam para confirmar seus pensamentos. Os tentilhões de Galápagos pertenciam, segundo os catalogadores que trabalharam no material trazido por Darwin, a diferentes espécies. Darwin imaginou que aquilo só poderia ser o resultado de um processo no qual havia originalmente uma única espécie de tentilhão na ilha e que ela foi substituída por toda aquela diversidade que encontrou. Dessa forma, raciocinou que as novas espécies descendiam de um predecessor único mal-adaptado, que se extinguiu. Darwin chamou esse processo de “linhagem modificada”.

Nos três anos seguintes ao seu retorno, ele elaborou as informações e os insights que teve para desenvolver uma teoria que transformaria nosso conhecimento. Um desses insights veio da leitura de “Ensaio sobre o princípio da população”, de Thomas Robert Malthus. A ideia de luta pela sobrevivência dentro da própria espécie desenvolvida por Malthus (ao se referir às conseqüências catastróficas do crescimento populacional da humanidade), fez Darwin supor que, quando há uma competição pela sobrevivência dentro da própria espécie, os indivíduos mais aptos são os que sobrevivem e transmitem suas características às gerações seguintes, enquanto os menos adaptados desaparecem.

Aos 29 anos de idade Darwin já tinha desenvolvido os alicerces do conceito de seleção natural. Mas ele continuava hipocondríaco e solitário. Foi quando decidiu casar-se. A escolha recaiu sobre sua prima em primeiro grau Emma Wedgwood. Eles casaram-se em janeiro de 1839. Logo após o casamento, ele publicou “Diário”, que relatava as suas aventuras exóticas a bordo do Beagle. O livro fez um imenso sucesso popular, ao mesmo tempo em que era alvo de zombaria nos níveis acadêmicos. Mas as ideias sobre a seleção natural continuavam guardadas com ele, que evitava publicá-las para não suscitar qualquer controvérsia. Em 1842, resolveu resumir sua visão sobre a evolução, mas sem publicá-la.

Foi somente em 1859, mais de duas décadas após voltar de sua inspiradora viagem a bordo do HSM Beagle, que Charles Darwin finalmente decidiu publicar “Sobre a origem das espécies por meio da seleção natural ou A preservação das raças privilegiadas na luta pela sobrevivência”. A primeira edição esgotou no dia do lançamento. Novas edições e traduções para várias línguas foram feitas. A Igreja reagiu furiosamente. E pela primeira vez na história da ciência, uma teoria científica alcançou a fama popular. As pessoas realmente entenderam a teoria da evolução por seleção natural.

Nos anos seguintes à publicação de “Sobre a origem das espécies”, ele continuou a desenvolver sua teoria. Em 1872, Darwin publicou “Origem, a expressão das emoções no homem e  nos animais”, obra que fundou a etologia, a neurobiologia e o estudo da comunicação psicológica. Em 19 de abril de 1882, Charles Darwin morreu. Seu corpo foi enterrado na Abadia de Westminster, em Londres.