Crick e Watson na corrida pela identificação da estrutura do DNA
Juntos em Cambridge, Crick e Watson estudaram os achados do químico Linus Pauling que, tentando descobrir a estrutura de biomoléculas complexas, deduziu uma estrutura modelar para
proteínas envolvendo uma hélice. Para Pauling, aquela poderia ser a forma de muitas moléculas complexas, inclusive o
DNA.
Além de Linus Pauling, que trabalhava no California Institute of Technology (Caltech), Maurice Wilkins e Rosalind Franklin, do King’s College, ainda que numa parceria problemática, também estavam tentando identificar a estrutura do DNA. O King’s College e o Laboratório Cavendish tinham um acordo de cavalheiros que definiu que o pessoal de Cambridge se preocuparia com as proteínas enquanto os pesquisadores do King’s ficariam com o DNA. Mas Crick e Watson não pretendiam respeitar rigorosamente esse acordo.
No King’s, o trabalho de Rosalind Franklin com difração de raios x tinha feito significativos progressos em novembro de 1951. Ela tinha captado as melhores imagens do DNA até aquele momento. Isso a levou a algumas conclusões importantes que resolveu apresentar num seminário em Londres. Seu parceiro Wilkins decidiu convidar Watson para assistir, sem imaginar o quanto ele estava interessado no assunto e da intenção dele e Crick em passarem a perna nos “concorrentes” sediados em Londres. Após o seminário, Watson voltou para Cambridge inspirado e decidido a construir um modelo do DNA baseado no que ouvira. Seu parceiro Crick também acreditava mais em especulações teóricas, no que era irritantemente brilhante, do que em pesquisas desnecessárias. Ambos se dedicaram à construção de um modelo com três hélices interligadas, inspirados no palpite de Pauling e nas conclusões de Franklin. Mas, Watson parece não ter entendido bem o que Franklin falou e o modelo expunha várias falhas.
O fiasco de ambos chegou aos ouvidos do diretor de Cavendish, Sir Laurence Bragg. O rompimento do acordo de cavalheiros rendeu uma dura reprimenda a Crick, afinal ele era o mais velho e provavelmente na visão de Bragg quem teria desviado o jovem pesquisador americano do bom caminho. O chefe de Cavendish proibiu que fosse feito qualquer outro trabalho com o DNA. Mas Crick e Watson eram muito mais ambiciosos do que qualquer um pudesse imaginar. Eles poderiam estar proibidos de trabalhar com DNA, mas não estavam proibidos de pensar sobre ele.
Os dois tinham pressa e discutiam a questão com outros pesquisadores, como o matemático John Griffiths, um jovem doutorando, que desenvolveu alguns cálculos mostrando como as quatros bases do DNA (adenina, citosina, guanina e timina) eram atraídas uma pela outra. Enquanto isso, Wilkins imprudentemente continuou a mostrar aos dois os progressos feitos pelo King’s College. No outono de 1952, Watson fez amizade com Peter, filho de Linus Pauling, que lhe mostrou uma cópia do artigo que o pai pretendia publicar revelando a estrutura do DNA. Pronto! Tudo estava perdido. Não havia como eles competirem com o maior químico do século. Mas o inacreditável aconteceu. Watson descobriu que Linus Pauling havia cometido um erro. Ele não deu aos grupos fosfatos, que formavam os elos em cada cadeia, qualquer ionização. Não havia assim na estrutura de Pauling carga elétrica para manter as longas e finas cadeias coesas. Um erro primário e era uma questão de tempo para Pauling notá-lo e corrigi-lo.
Nessa corrida, Wilkins mais uma vez inadvertidamente mostrou a Watson novas imagens do DNA feitas por Franklin. Elas eram espantosas. Watson imediatamente teve um insight. Após alguns cálculos, ele concluiu que o DNA consistia de duas fitas helicoidais entrelaçadas. Após convencer o chefe Bragg e receberem autorização para irem em frente na construção do modelo, eles ainda cometeram alguns erros crassos. Mais uma vez a enorme autoconfiança dos dois serviu para não desistirem e eles abandonaram rapidamente as hipóteses que não serviam. Após solucionarem o intrincado problema das ligações das bases e seus encaixes na cadeia, eles concluíram o modelo em 7 de março de 1953, cinco semanas após terem iniciado sua construção. A notícia de que pesquisadores de Cambridge tinham descoberto o segredo da vida logo se espalhou. Em 25 de abril de 1953, a revista “Nature” trouxe o artigo “Estrutura molecular dos ácidos nucléicos” assinado pelos dois. Alguns consideraram que Cricks e Watson fizeram de forma inescrupulosa o uso de material desenvolvido pelo King’s College. Entre eles, o comitê do
Prêmio Nobel. Em 1962, a descoberta do DNA rendeu o Prêmio Nobel de Medicina a Francis Crick, James Watson e, também, a Maurice Wilkins. Rosalind Franklin havia morrido em 1958, aos 37 anos, vítima de câncer (desde 1961, o Prêmio Nobel deixou de oferecer premiações póstumas).