Os cientistas discutem se os animais possuem cultura pelo menos desde o final de 1800, quando o fisiologista e psicólogo britânico George Romanes propôs que alguns animais apresentam comportamentos que indicam um grau elevado de inteligência e uma capacidade de aprendizagem. No entanto, outros cientistas discordam dessa conclusão e acreditam que o comportamento animal esteja enraizado no cérebro. Ao longo dos anos, os pesquisadores dos dois lados da questão se dividiram em dois campos: os culturalistas e os anticulturalistas. Os primeiro grupo afirma que os animais são muito mais espertos e mais adaptáveis do que a maioria das pessoas pensa. Já os anticulturalistas defendem que os animais, independentemente de sua inteligência, são incapazes de ter cultura.
O ponto central dessa discussão é definir o que exatamente se entende por cultura. Uma condição aceita por ambos os cientistas é a imitação, ou aprendizagem através da observação. Os pesquisadores concordam que as tradições culturais entre os humanos são aprendidas através da imitação. Uma família norte-americana do meio-oeste pode aprender a usar os palitinhos para comer com a filha que estuda no Japão. Em outro exemplo, a maioria dos adolescentes dos Estados Unidos, desde a década de 50, aprendeu que o rock é um estilo de música legal de ouvir. Esse estilo musical tornou-se uma tradição cultural entre os jovens através da imitação, já que os adolescentes abraçam as preferências musicais predominantes de seus amigos.
As tradições familiares individuais ainda são outro tipo de comportamento cultural aprendido por meio da imitação. Uma mulher segue a receita específica de um bolo de chocolate alemão porque sua mãe o fazia. Um garoto aprende a velejar no barco da família assistindo ao seu pai. Uma coisa que essas tradições têm em comum além da imitação é que não são geneticamente determinadas.
Como esses exemplos da cultura humana, os comportamentos animais, como a "pesca" de formigas dos chimpanzés, não são claramente determinados pelos genes e, aparentemente, são transmitidos de um indivíduo a outro através da imitação. Entretanto, os anticulturalistas afirmam que a definição de cultura envolve mais do que apenas a imitação. Uma das principais vozes do campo anticulturalista, o psicólogo Bennett G. Galef, da Universidade de McMaster, em Ontário, defende que a cultura deve ser ensinada intencionalmente por um indivíduo com o objetivo de passar conhecimento para outro. E ensinar, ele observa, é uma tarefa difícil de comprovar nos animais. Outro fator que Galef e muitos outros anticulturalistas acreditam ser necessário para a disseminação da cultura é uma linguagem falada - algo que nenhum animal possui.
Porém, os culturalistas afirmam que tornar a língua falada uma condição de cultura é perda de tempo. Nenhum comportamento animal compartilhado, por mais sofisticado que fosse, poderia ser qualificado como cultura. Muitos culturalistas, inclusive o psicólogo Andrew Whiten, da Universidade de St. Andrews, na Escócia, e Jane Goodall, a renomada zoóloga que passou a vida estudando os chimpanzés, acham que a cultura deveria ser definida mais amplamente. Acreditam que o desenvolvimento de um comportamento através de um grupo de animais pela observação e imitação qualifica-se como cultura. Sob essa definição, a transmissão de uma técnica de captura de insetos de um chimpanzé a outro é, na verdade, uma forma de cultura.