![]() Foto de China Photos/Getty Images A menina Jiaxue, de quatro anos, nasceu com pintas pretas cabeludas cobrindo partes de suas costas, peito, pescoço e rosto. A mídia considerou isso um atavismo |
Pode ser que você já tenha ouvido falar no homem mais peludo do mundo. A mídia adora mostrar a foto dele. Os jornais chamam essas e outras características de atavismos. Será que o homem mais cabeludo é mesmo uma regressão do nosso ancestral símio? Nem tanto. O rosto dos gorilas não tem pelos, como descreve Michael Le page em seu artigo sobre atavismos na revista New Scientist. Então, a hipertricose, uma doença que provoca o crescimento excessivo de pêlos pelo corpo, não é um atavismo, a menos que nossos ancestrais sejam os lobisomens. Se isso for atavismo, não tem como vir de animais apontados quando se fala em evolução, como os chimpanzés.
Qual é a diferença entre atavismos e estruturas vestigiais? São muito semelhantes. As estruturas vestigiais são partes do corpo que sobrevivem em forma de versões degeneradas e imperfeitas do que elas deveriam ser. Pense no avestruz: ele tem asas, mas não voa. Os avestruzes usam suas asas para outras coisas, como o equilíbrio, mas suas asas não funcionam como asas. Suas asas são vestigiais, ou seja, têm um propósito, mas não aquele para o qual foram designadas.
Os atavismos são traços de ancestrais distantes que reaparecem nos dias de hoje. Para que o traço seja um atavismo, nem os pais nem os ancestrais recentes do ser vivo em questão podem apresentar esse traço. O atavismo mais comum? Ah, você já deve ter ouvido falar nele... é o rabo humano. Não é piada de filme pastelão, acontece de verdade. No entanto, há dois tipos de rabo humano: o falso rabo e o rabo humano verdadeiro, muito mais raro. O falso rabo não tem ossos nem cartilagem, é pele e gordura. Porém, o rabo humano verdadeiro tem nervos e músculos e, às vezes, até cartilagens ou vértebras, apesar de haver um certo debate científico sobre esse assunto. Todas as vértebras podem formar um rabo, e daí? Daí que os humanos são vertebrados. Lá atrás pode ser que todos nós tivemos um rabo, o qual pode ter sido importante para nós, talvez para nos dar equilíbrio.
Alguns outros traços que poderiam ser atavismos humanos:
Até que se saiba mais sobre a genética desses traços, podemos apenas especular [fonte: LePage (em inglês)]. |
Então como surgem esses traços? Uma idéia é a de que ao invés de os genes se perderem durante a evolução, eles ficam apenas silenciosos. Ainda estão lá, porém não estão agindo. Mas talvez esses genes possam ser ligados novamente. Estudos mostram que há espécies que perdem e ganham asas novamente milhões de anos depois. Será que essas espécies estão voltando? Ou será que de repente um gene com a etiqueta "crescer asas" foi ligado novamente?
Os cientistas ainda não têm certeza de como funcionam os atavismos. Para descobrir a resposta, eles recorrem aos embriões. Os embriões desenvolvem no útero características que desaparecem mais tarde. Os embriões de baleia têm botões onde deveriam ser as pernas, mas eles desaparecem com o desenvolvimento. Quando você era um feto, tinha um botãozinho onde deveria ser um rabo, mas ele desapareceu antes do seu nascimento. No entanto, em algumas raras ocasiões, eles não desaparecem, e uma baleia bebê nasce com apêndices em forma de perninhas ou então um bebê humano nasce com um rabo, que é normalmente amputado.
Então por que acontecem atavismos? Qual é o lugar deles na evolução? Não sabemos a reposta. Quando pensam em informações genéticas, as pessoas geralmente pensam em clonagem, crianças preparadas e outros tópicos polêmicos. Entretanto, investigar a fundo nossas informações genéticas pode ser uma das mais empolgantes áreas de pesquisa, que desvendaria finalmente de onde viemos e como chegamos onde estamos.
O termo "atavismo" geralmente é mal aplicado ou entendido. As pessoas quase sempre usam a palavra para descrever qualquer coisa que considerem primitiva ou simplesmente esquisita. A lógica é mais ou menos essa: um homem é muito peludo. Macacos são peludos. Só pode ser um atavismo! Talvez ele seja o "elo desaparecido"!
Aumentando a confusão, as pessoas também usam a palavra "atávico" para se referir a traços arquitetônicos e psicológicos, entre outras coisas. Uma agressão humana pode ser descrita como atávica porque ela supostamente remete-nos aos tempos antigos dos caçadores bárbaros. |
Para saber mais sobre atavismos, evolução e tópicos relacionados, veja os links na próxima página.