Introdução


atavismo
Uma vez ou outra, um cientista encontra ao acaso um animal com uma característica bem esquisita, como, por exemplo, uma baleia com pernas. Sim, uma baleia com pernas. É óbvio que as baleias não têm pernas. Então como foi que isso aconteceu?

A nossa amiga baleia nos dá um exemplo perfeito de atavismo, uma característica de um ancestral evolutivo distante que reaparece em um organismo dos dias de hoje. Há milhões de anos, os ancestrais das baleias caminhavam em terra. Com o tempo, elas deixaram de viver na terra e passaram a ser criaturas do mar, possivelmente em busca de comida, e foram perdendo as pernas e outros traços desnecessários para a vida no oceano. Vamos entender como isso aconteceu falando um pouco sobre como a evolução funciona.

golfinho com apêndices parecidos com pernas
Museu Taiji Whale/Getty Images
Em novembro de 2006, foi encontrado no Japão um golfinho com barbatanas no rabo

A teoria da evolução estabelecee que o DNA pode mudar. Tais mudanças em um DNA podem ser boas, ruins ou neutras. Sendo assim, com o tempo essas mudanças, ou mutações, geram novas espécies. A seleção natural faz parte da evolução. Os organismos que sofrem boas mutações, ou seja, mudanças benéficas, prosperam e se reproduzem, enquanto os que sofrem mutações ruins morrem. A seleção natural sempre decide a hora da vez. (Para uma explicação mais detalhada, veja Como funciona a evolução). As baleias que foram para o mar não utilizavam mais as pernas, assim, o DNA delas sofreu mutações para que essa característica fosse extinta. Os ancestrais de baleias que tiveram seus corpos melhor adaptados ao seu ambiente prosperaram e passaram essas adaptações a seus herdeiros.

Segundo a Lei de Dollo, a evolução é irreversível, e as coisas que se perderam durante o curso desta não reaparecem. Se ela se foi... Já era! Adeus, pernas de baleia. Os cientistas modernos mudaram essa lei dizendo que a chance disso acontecer é pequena. Mas e se a Lei de Dollo estiver errada? Uma baleia com pernas é apenas um exemplo de atavismo, só que eles aparecem bem mais vezes do que você pode imaginar. Talvez a evolução não funcione da maneira que acreditávamos. Talvez o entendimento dos atavismos nos ajude a desvendar alguns dos mistérios da evolução, uma teoria que ainda guarda algumas lacunas.

Durante muito tempo os atavismos foram mal compreendidos, em parte por causa de um homem chamado Cesare Lombroso, um Darwinista social. Ele achava que os criminosos são regressões de um ancestral humano primitivo. Ele declarava que os criminosos nasciam assim, e que podiam ser reconhecidos pela sua fisiologia. Segundo Lombroso, certas características faciais revelam um criminoso. (Um dado curioso é que Lombroso também acreditava que os criminosos deveriam ter uma resistência maior à dor do que o cidadão comum, porque muitos deles tinham tatuagens feitas na prisão. Sua lógica estava no fato de as tatuagens serem doloridas e, já que os criminosos tinham tatuagens, eles deveriam ser mais resistentes à dor. As idéias de Lombroso foram ouvidas por algum tempo, apesar de ser evidente que suas conclusões não tinham nenhuma base científica. Às vezes, as pessoas ainda associam os atavismos a estereótipos desagradáveis, embora não seja esse o significado da palavra.

Então, o que quer dizer isso? Na página a seguir, vamos conhecer características que por engano são consideradas atavismos e saberemos como elas podem aparecer.

As controvérsias dos atavismos
Alguns cientistas acham que os atavismos não têm nada a ver com a evolução. Aliás, a própria evolução já é uma polêmica muito debatida.

Louis Bolk dizia que todos os mamíferos, com exceção dos humanos, têm capacidade de apresentar as características que chamamos de atavismos. Essa crença não faria dos atavismos regressões evolutivas, seriam apenas acasos genéticos.