A importância da glaciologia num país tropical

A história da Terra através do gelo. Esse é o trabalho do primeiro glaciólogo brasileiro, Jefferson Simões, que fez um bate-papo no dia 24 de junho no Sesc Pompéia, num evento que faz parte da programação do Latitude 90º.

Jefferson Simões
Luís Indriunas
O glaciólogo Jefferson Simões

Jefferson Simões coordena o Núcleo de Pesquisas Antárticas e Climáticas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, o único grupo brasileiro voltado integralmente para as pesquisas no continente gelado. São 30 pessoas entre doutores, mestres e bolsistas de graduação e pós-graduação. Além de pesquisar a história através do que os cientistas chamam “testemunhos de gelo”, o grupo monitora os efeitos no continente do aquecimento global por meio de imagens de satélite.

Simões também está coordenando a preparação do primeiro grupo de cientistas brasileiros que irá fincar pé no continente antártico propriamente dito, mais precisamente a 80º de latitude sul. Isso porque todas as pesquisas feitas por brasileiros até hoje restringem-se à estação Comandante Ferraz, que fica na região subpolar, mais especificamente na ilha rei George, a 130 km da península. No projeto, estarão apenas brasileiros e o principal objetivo é buscar mais material para as pesquisas de “testemunho de gelo”. O projeto, que deve ser levado a cabo no verão antártico 2008/2009, tem R$ 1,5 milhão já prometidos, mas para que se realize a contento é preciso o dobro do dinheiro. Jefferson está rodando o chapéu na iniciativa privada.

No líquido, Simões já passou dois anos e meio nas regiões polares, mas o gelo está completamente presente no seu cotidiano. Seu doutorado em Glaciologia foi na Universidade de Cambridge e suas primeiras incursões foram na região Ártica. No bate-papo, Jefferson mostrou um pouco do seu trabalho e tentou quebrar mitos e passar mais informações sobre as regiões polares e sua importância para a Terra. Vamos a alguns trechos:

Sobre os “testemunhos de gelo”

“O nosso trabalho é coletar gelo nos locais com menos interferência climática e atmosféria na Antártica e, através deles, poder contar a história do clima terrestre e das mudanças na atmosfera nos últimos 5 mil anos. São cilindros que coletam o material a profundidades de até 3 mil metros”

Algumas conclusões

“É evidente, pelas coletas, que a concentração de dióxido de carbono e outros gases que aceleram o efeito estufa aumentaram a partir do século 19 e, com mais força, a partir da segunda metade do século 20.”

“Colegas franceses detectaram a presença de excesso de chumbo na atmosfera durante o período do Império Romano. Ou seja, a poluição atmosférica não é novidade. Sua intensidade é que é uma realidade atual.”

“O período da Idade Média é um dos que menos poluentes atmosféricos existiu. Afinal, a atividade econômica era muito pequena.”

“Os componentes que criam a chuva ácida não existiam na atmosfera antes do século passado.”

“Nas perfurações foram descobertos lagos não congelados embaixo das espessas camadas de gelo de 3 mil metros. Já foram encontrados mais de 150 lagos. Agora, os cientistas querem saber se há vida neles e se eles têm alguma interligação.”

“O Ártico é realmente a região polar mais afetada pelo aquecimento global. Sua área de gelo, que era de mais de 7 milhões de quilômetros quadrados em 1980, hoje está no patamar de 3,5 milhões de quilômetros quadrados”

Sobre os mitos e fantasias do aquecimento global

“Muitos jornalistas mal informados falam que o descongelamento dos mares congelados vai aumentar o nível dos oceanos drasticamente. Tem gente que imagina a estátua da Liberdade submersa. Eles esquecem um princípio básico ensinado no colegial, o de Arquimedes, ajuda a negar a tragédia. Tente congelar e depois descongelar um copo de água. Ele não vai transbordar, aliás vai diminuir de altura.”

“O problema maior está sim no degelo da massa de neve e gelo que fica sobre as ilhas do Ártico e o continente Antártico. Quando essa área derrete a água acaba transbordando para os oceanos. A tendência é que 1% do gelo dessas áreas derreta até 2100. E isso é grave. Já que o nível do mar pode subir 60 cm até lá”.

“As mudanças climáticas vão sim trazer secas e mudanças drástica no meio ambiente, mas há regiões que poderão se beneficiar. Regiões da Sibéria, Canadá , Chile ou dos países nórdicos podem se tornar cultiváveis”.

Sobre as pesquisas na Antártica

“Há todo tipo de pesquisa na região. Umas muito sérias, outras que não podem ser consideradas científicas. Muitos países querem apenas fincar o pé no continente pensando em um futuro remoto”.

“As pesquisas mais complexas e completas estão sendo feitas por países como Alemanha, Estados Unidos, Grã-Bretanha, Rússia, Espanha e Austrália. Entre os países em desenvolvimento, há trabalhos muito sérios, em menor proporção é claro, feitos por indianos, brasileiros e chilenos, por exemplo. Infelizmente, os argentinos, por causa dos problemas econômicos, não têm tido uma atuação muito forte no continente”.

“Para o brasileiro, é muito difícil entender a importância das pesquisas na Antártica. Aí, eu dou dois exemplos: o Rio Grande do Sul está mais perto de lá do que de Roraima e as frentes frias que vêm do continente chegam até o sul da Amazônia”.

“Eu fui o primeiro, aliás o primeiro de língua portuguesa, mas hoje já existem quatro glaciólogos brasileiros. É um avanço”.