O apoio da Marinha para se pesquisar na Antártica
Eles passam o ano inteiro no mundo polar. São selecionados através de rigorosos testes e treinamentos, além de passarem por acompanhamento psicológico. Suas funções são as mais variadas, de cozinheiro a médico. De mergulhador a técnico de manutenção. Sem eles, a pesquisa brasileira na
Antártica seria impossível. Eles são os marinheiros que trabalham na estação científica Comandante Ferraz e que dão apoio às pesquisas. O
capitão-de-mar-e-guerra, Geraldo Gondim Juçaba Filho, assessor de
relações internacionais da Marinha, sabe muito bem como é esse trabalho. Além de já ter coordenado a logística das viagens à Comandante Ferraz, já foi Subcretário do Programa Antártica (Proantar). Sua primeira viagem à estação foi ainda no início dos anos 80. O capitão Gondim Juçaba esteve em São Paulo, visitando a exposição Latitude 90º e falou com o ComoTudoFunciona, tocando inclusive em outros assuntos como a reforma da estação e os benefícios para a pesquisa com as comemorarções do Ano Polar.
 Luís Indriunas Capitão Gondim Juçaba e a assessora da Frente Parlamentar Pró-Antártica na exposição Latitude 90º
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Quantas pessoas da Marinha estão envolvidas na logística das viagens e manutenção da estação Comandante Ferraz?
Capitão Gondim Juçaba - Bom, quatro oficiais são responsáveis pela preparação de tudo o que os pesquisadores e pessoal de apoio precisam para as viagens e hospedagem na estação. Compram alimentos, planejam o equipamento necessário, as coisas que cada pesquisador vai precisar.
Deve ser muito diferente a alimentação lá na estação?
Capitão Gondim Juçaba - Não, não é. Aliás é muito boa. Lembro da história de um capelão (toda expedição tem um capelão) que ficou preso cerca de dez dias na estação. Como o cozinheiro era um doceiro de mão cheia, o capelão saiu de lá 10 quilos mais gordo (risos). Eu mesmo numa das minhas expedições acabei engordando e muito. Ou seja, a comida além de comum, é boa. Apenas o pessoal que vai acampar fora da estação que precisa de comida especial, leofilizadas ou secas.
É cara a manutenção da estação e o transporte dos cientistas?
Capitão Gondim Juçaba -Todo essa logística custa cerca de R$ 10 milhões por ano para os cofres públicos. Além do pessoal que fica em Brasília, quantas pessoas trabalham lá na Antártica? Até 2006, eramos 10 integrantes da Marinha a cada ano. Desde o ano passado, o número cresceu para 15. Até porque a estação passa por uma reforma que a ampliou.
Aliás como está a reforma da estação?
Capitão Gondim Juçaba - Ela está em fase já bem avançada. Nós aproveitamos o inverno, época com menos pesquisadores para acelerar.
A estação vai ser ampliada?
Capitão Gondim Juçaba - Em número de metro quadrados, praticamente não. O que está acontecendo é que antes toda a estação era dividida em pequenos cointeineres de aço. Agora, ela se transformou em um monobloco, o que ajudou a maximizar o espaço sem criar impacto externo. O projeto é da arquiteta Cristina Engel de Alvares, doutora da Universidade Federal do Espírito Santo. Ela conhece bem a realidade antártica. Ela esteve na estação, quando ainda era estudante pelo, então, projeto Rondon. A experiência nunca saiu da sua vida e é a nossa arquiteta especializada.
Mas voltando ao pessoal de apoio, como são selecionados os marinheiros que vão trabalhar lá?
Capitão Gondim Juçaba -Todo ano cerca de 400 integrantes da Marinha se inscrevem interessados em ir para a Antártica, por vários motivos. Alguns por motivos financeiros, afinal eles sabem que recebem uma gratificação a mais pela viagem internacional e o salário fica praticamente "limpo" durante um ano, já que não gastam nada por lá. Outros têm real interesse pela região. Para selecionar esse pessoal, são feitos testes psicotécnicos e físicos rigorosos. Depois do teste, fica uma turma menor de cerca de 70 pessoas que faz um treinamento rigoroso em Marambaia, no Rio de Janeiro, inclusive com acompanhamento psicológico. Isto normalmente é em junho. Em agosto, é feito um novo treinamento. Dessa vez, com os pesquisadores que vão viajar no próximo ano. Após tudo isso, são selecionadas duas equipes com integrantes com as mesmas capacitações. Dois cozinheiros, dois mergulhadores, etc. Uma viaja e outra fica de apoio, sem por acaso necessidade da substituição de alguém. Ah, além do acompanhamento psicológico dos soldados, as famílias também recebem a orientação. Afinal, é um ano sem a presença física deles.
Mas eles se comunicam com a família?
Capitão Gondim Juçaba - Hoje em dia sim, afinal temos uma torre de celular e uma conexão de internet de 2 Giga Bytes, graças a um convênio com a Oi/Telemar. Antigamente, era pior, a gente só falava com os parentes em um rádio chiando.
O senhor esteve na Antártica no início dos anos 80 e agora em 2006, sentiu muita diferença?
Capitão Gondim Juçaba - Sim, muita. Além do degelo, que é perceptível, o número de animais é muito menor. Agora, é interessante verificar que no último verão, em 2008, as mudanças climáticas propiciaram uma surpresa para nós. Os lagos que abastecem de água doce a estação ficaram congelados em pleno verão, pela primeira vez desde o início das atividades da estação. Tivemos que enviar desalinizadores para lá. O Seltzer, do Inpe, escreveu sobre isso. (O artigo pode ser acessado
aqui).
Com as comemorações do Ano Polar, houve um aporte maior de dinheiro para as pesquisas brasileiras na Antártica?
Capitão Gondim Juçaba - Sem dúvida, o Programa Antártica (Proantar) tem normalmente cerca de R$ 350 mil por ano destinados do orçamento da União. Com alguns ajustes, em alguns anos, é possível chegar a R$ 1 milhão. Com o Ano Polar, foram destinados R$ 9 milhões para dois anos de pesquisa. É muito mais do que antes.