A triste história do explorador britânico Scott
Na corrida para a chegada à latitude 90º do Pólo Sul, um dos principais personagens e com uma triste história é o explorador britânico
Robert Falcon Scott. Ele chegou ao local em
14 de dezembro de 1911, perdendo a corrida para o norueguês
Roald Amundsen, que fincou a bandeira do seu país no local quase um mês antes. Além disso, na viagem de volta Scott e sua equipe acabaram morrendo em março de 1912, sem conseguir chegar ao posto de apoio.
A trágica história do explorador está na
exposição Latitude 90º, no Sesc Pompéia, inclusive com a carta que ele escreveu para sua mulher antes de sua morte integralmente traduzida, que o ComoTudoFunciona publica abaixo.
 Da exposição Latitude 90º Scott (ao centro) e sua equipe
|
“Para minha viúva.
Minha muito querida,
Estamos em situação
extremamente difícil e tenho dúvidas de que conseguiremos ultrapassá-la. Nos poucos momentos em que somos abençoados com um minguado calor, na hora do almoço, aproveito para escrever cartas que
preparem a todos para um fim possível. A primeira carta naturalmente é para você, em quem meus pensamentos, acordado ou dormindo, principalmente se concentram. Se algo me acontecer, eu gostaria que soubesse o quanto você significou para mim e o quanto me confortam, neste momento de partida, as agradáveis lembranças de nossa vida em comum.
Gostaria que você também fosse por elas confortada e que tivesse certeza de que
não sofrerei nenhuma dor, deixarei o mundo em plena atividade, com toda a saúde e vigor. Infelizmente já está estabelecido: quando as provisões acabarem, nós simplesmente ficaremos onde estivermos, a uma curta distância de algum outro posto.
Portanto você não deve imaginar uma grande tragédia. Nós estamos, e temos estado há semanas, muito ansiosos, naturalmente, porém em esplêndida condição física, e nosso apetite compensa todo desconforto. O frio é cortante e, às vezes, irritante – é quando uma refeição quente o afasta e é tão apreciada que sem ela dificilmente suportaríamos.
A situação piorou bastante desde que interrompi esta carta.
Nosso Titus Oastes, infelizmente, não suportou; ele estava em péssimas condições. Nós, os demais, ainda continuamos e pensamos na possibilidade de uma chance de vencer. Contudo, o frio não cessa nem um pouco.
Estamos a 20 milhas do posto, mas temos pouca comida e o combustível é escasso.
Bem, minha querida, quero que você enfrente tudo isto com muita sensatez, como, aliás, tenho certeza de que o fará. O menino será seu conforto. Eu tinha feito planos para ajudá-la a criá-lo, no entanto, sei que ele estará protegido com você e isso me conforta. Penso que tanto ele como você receberão cuidados do nosso país, razão pela qual, afinal de contas, sacrificamos nossas vidas.
Que nossos esforços sirvam de exemplo. Deste ponto em diante, estou escrevendo as cartas na parte posterior deste livro. Por favor, envie-as para os vários destinatários.
Devo escrever uma cartinha para o menino, para que ele leia, se tiver oportunidade, quando se tornar adulto.
Minha muito amada, saiba que não alimento nenhum sentimento tolo quanto à possibilidade de vir a se casar novamente.
Quando o homem certo chegar, para ajudá-la a viver, você deverá voltar a ser feliz.Espero deixar uma boa lembrança e, por certo, este fim de nenhum modo lhe será causa de constrangimento. Ao contrário, penso que o menino só terá motivos para se orgulhar e em que se basear para constituir sua família.
Querida, não é fácil escrever por causa do frio
(70 graus negativos) e nada mais senão o abrigo de nossa barraca.
Você sabe que eu a amo, você sabe que meus pensamentos ficarão constantemente com você e, oh, minha querida, você deve saber que o pior desta situação é o pensamento de que nunca mais a verei. O inevitável deve ser encarado –
você me incentivou a ser o líder deste grupo e sei que você previu que seria perigoso –
eu cumpri minha tarefa, não foi?Deus lhe abençoe, minha querida. Tentarei escrever mais, depois. Continuo a escrever nas páginas de trás. Desde a última vez que lhe escrevi, nos aproximamos 11 milhas de nosso posto. T
ivemos apenas uma refeição quente e, por dois dias, refeição fria. Era para termos lá chegado, mas ficamos presos por quatro dias devido a uma terrível tempestade. Acho que perdemos nossa melhor chance. Decidimos não por fim às nossas vidas e lutar com a esperança de chegar àquele posto. Certamente, será sem dor, portanto não se aflija.
Escrevi cartas em páginas esparsas deste livro – será que você vai conseguir enviá-las? Estou ansioso por você e o futuro do menino.
Faça-o interessar-se por História Natural, se você conseguir – é melhor do que jogos. Algumas escolas encorajam esse estudo. Sei que você o manterá, o máximo possível, ao ar livre.
Tente fazê-lo acreditar em um Deus, é reconfortante.Oh, minha querida, minha querida, que sonhos eu tive a respeito do futuro do menino, e ainda assim, minha garota, sei que você enfrentará estoicamente todas as dificuldades. Sua foto e a do menino serão encontradas em meu peito – e também aquela, no porta-retrato vermelho marroquino, oferecido por Lady Baxter. Na minha bolsa particular, há um pedaço da bandeira da Inglaterra – que hasteei no Pólo Sul – junto com a bandeira negra do Amundsen e outras lembrancinhas. Dê um pedaço da bandeira da Inglaterra ao Rei, e um pedacinho menor para a Rainha Alexandra, e o resto guarde como um humilde prêmio para você!
Quanta coisa, quanta, eu poderia lhe contar desta viagem. Quão melhor foi do que ficar perambulando no conforto do lar – que histórias você teria para contar ao menino, no entanto a que preço! Não mais verei seu rosto tão querido!
Querida, procure confortar a mamãe. Vou escrever umas poucas linhas para ela neste livro. Também fique em contato com Ettie e os outros. Oh,
mantenha uma postura corajosa diante do mundo; não seja orgulhosa demais a ponto de não aceitar ajuda que favoreça o menino. Ele deve ter oportunidade de conseguir uma boa profissão e fazer algo neste mundo.
Não terei tempo para escrever a Sir Clements – diga-lhe que pensei muito nele e nunca me entristeço por ele ter-me posto no comando do Discovery.
A última carta de Scott da Antártica"