Como funciona o uso de animais em laboratórios

Autor: 
Sylvia Estrella

Eis uma grande polêmica. O uso de animais em laboratórios, tanto para fins médicos quanto para fins comerciais, é uma discussão quente e longe de ser totalmente resolvida.

Tanto que o prêmio Nobel de Medicina de 2007 foi para uma equipe de cientistas (os americanos Mario Capecchi, Oliver Smithies e o britânico Martin J. Evans) que utilizaram ratos de laboratórios modificados geneticamente provocando-lhes doenças semelhantes aos do homem para estudar os tratamentos.

Enquanto se premia a técnica, outros cientistas e representantes da sociedade civil reivindicam a diminuição da prática, quando não a completa extinção do costume.

E bote costume nisso. Entre as práticas usadas com animais de laboratório, está a vivissecção, que é a cirurgia em animais, muito comum em faculdades de biomédica, para estudar seus órgãos e tecidos. Os animais são também usados em testes de novas drogas para os mais diversos fins, além de experimentação de procedimentos cirúrgicos. Na psicologia, são usados para determinar reações à privação maternal, indução de estresse. As indústrias de cosméticos, produtos higiênica e de limpeza usam animais para ver o grau de toxicidade de seus novos produtos. As toxidades alcoólica e de tabaco são testadas em animais. E até para armas químicas são usadas cobaia.


©iStockphoto.com/Andrei Tchernov

O problema é que cerca de 80% desses testes é feita sem anestesia, ou usando uma vida, quando há alternativas para se realizá-los sem animais, segundo o biólogo Sérgio Greif, autor do livro “Alternativas ao Uso de Animais Vivos na Educação”. Os testes em animais causam dores extremas, cegueira e morte.

A organização não governamental The Humane Society, dos Estados Unidos, calcula que são usados como cobaias por ano de 70 a 100 milhões de bichos que morrem, 30% sacrificados pela indústria de cosméticos. No Brasil, não existe uma estatística oficial a respeito. No Rio de Janeiro, por exemplo, o Instituto Vital Brasil mata cerca de 17 mil camundongos, oitenta cobaias e sessenta coelhos por mês. Mas, com isso, são fabricadas 60 mil doses de soro antiofídico, 120 mil doses da vacina anti-rábica e 5 milhões de doses da vacina antitetânica.

A fabricante de cosméticos Natura usou, em 2005, 96 animais em seus laboratórios, quando em 1999 utilizava 4 mil. É a única empresa brasileira de cosméticos que mantém o compromisso de eliminar inteiramente as experiências com animais até 2009.

Na revista científica Acta Cirúrgica Brasileira, 95% dos artigos enviados são de pesquisa em animais de laboratório. Não raro, os editores recebem trabalhos que não cumprem "os princípios éticos da experimentação animal", determinados pelo Colégio Brasileiro de Experimentação Animal (Cobea).

Tradição de séculos

Fazer observações médicas para por meio de animais é uma prática muito comum na nossa civilização. Hipócrates, considerado o pai da medicina, relacionava, didaticamente, órgãos humanos doentes com o de animais, por volta do ano 450 a.C. Nos séculos seguintes, os primeiros anatomistas faziam vivissecções animais com o objetivo de observar estruturas e formular hipóteses sobre o funcionamento associado às mesmas. A primeira vivissecção com caráter experimental como conhecemos hoje pode ter acontecido em Roma entre os séculos 2 e 3.

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