Santos-Dumont

Alberto Santos-Dumont era o sexto filho de mãe portuguesa e pai francês. Para mostrar que a ascendência tinha o mesmo peso, costumava assinar seu sobrenome com o sinal de igual no lugar do hifen: Santos=Dumont. O pai, Henrique, era engenheiro formado em Paris e, apesar de ter dedicado boa parte de sua vida à construção de estrada de ferro, fez fortuna com o cultivo do café. Iniciou com uma fazenda na antiga Cabal (hoje Rio das Flores), no Rio de Janeiro, e acabou tendo 60 fazendas na região de Ribeirão Preto (SP) que, juntas, produziam 4 milhões de sacas de café por ano e foram responsáveis pelo desenvolvimento da região e pelo título de Rei do Café dado a Henrique. A fazenda Arindeuva, onde viviam Henrique e sua família, tornou-se a mais moderna da América do Sul: 5 milhões de pés de café, 96 km de ferrovias e sete locomotivas.


A foto clássica de Santos-Dumont

­Santos-Dumont cresceu entre cafezais e pequenas invenções que poderiam possibilitar o homem pairar ou se locomover no ar. Para matar o tempo, passava horas observando os pássaros e construindo pipas exóticas e aeronaves movidas a elástico. Tinha talento para a mecânica e, desde cedo, foi incentivado pelo pai. Quando sofreu um acidente que obrigou-o a ir a Paris para tratamento, em 1890, Henrique levou Santos-Dumont com ele. Ali, o jovem Alberto conheceu o automóvel (foi ele quem, em 1898, trouxe para o Brasil primeiro automóvel movido a petróleo) e os balões a gás. Dois anos depois, mudou-se para a cidade-luz. Já emancipado e com dinheiro suficiente deixado pelo pai para sustentá-lo pelo resto da vida, Dumont dedicou-se aos estudos da matemática, da física, da eletricidade e da mecânica. Tudo para conquistar o ar.

Após seu primeiro vôo de balão, em 1998, Dumont contou: “Durante toda a viagem acompanhei as manobras do piloto; compreendia perfeitamente a razão de tudo quanto ele fazia. Pareceu-me que nasci mesmo para a aeronáutica. Tudo se me apresentava muito simples e muito fácil; não senti vertigem, nem medo”. Dumont iniciava ali sua caminhada rumo à invenção do dirigível, dos balões de gás de pequeno porte, do 14 Bis, do hangar, do Demoiselle e do relógio de pulso.

Figura extravagante

Santos-Dumont era baixinho e franzino. Tinha 1,60m e pesava 50 kg. Seu peso fazia dele um ótimo piloto de testes para seus inventos aeronáuticos. Ele era leve, muito leve. Para disfarçar a altura e alongar a silhueta, usava sapatos com salto, colarinho alto e uma capa de seda que fizeram moda na Paris da época. Tinha hábitos extravagantes: praticava balonismo pela manhã e almoçava “nas alturas” com seu mecânico chefe (mesa e cadeiras com mais de 2 metros de altura no restaurante Maxim’s). Não dispensava o champagne nem nos almoços nem nos balões, para onde também levava um cesto com ovos cozidos, rosbife e frango frio, sorvete derretido, frutas, bolos, café e licor.

Em sua casa, recebia os endinheirados da época para jantares regados a champagne. Em um deles, encomendou ao amigo Louis Cartier um relógio totalmente diferente dos que existiam na época: o acessório deveria permitir ao inventor consultar as horas facilmente durante os vôos. Nasceu ali o relógio de pulso, em contraposição aos tradicionais de bolso.

Em 10 anos, Santos-Dumont construiu, testou e voou em 20 balões e aeroplanos. Seu último vôo como piloto foi no Demoiselle (projeto nº 22), o primeiro ultraleve de que se tem notícia. A partir daí, o pai da aviação sai da cena dos grandes acontecimentos e sente-se esquecido. Depois de ser confundido pela polícia francesa com um espião alemão, em plena Primeira Guerra, ele entra em depressão e começa a desenvolver esclerose múltipla. Após várias visitas ao Brasil, volta ao país definitivamente em 1926 e aqui vive até enforcar-se com duas gravatas no banheiro do quatro de hotel em que residia, em São Paulo, em 23 de julho de 1932, aos 59 anos de idade.

­